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Tensão geopolítica leva chineses e investidores do Oriente Médio a ampliar apostas no Brasil
Com a retração de fundos de private equity, investidores estratégicos da China e do Oriente Médio buscam oportunidades no Brasil, atraídos pelo potencial de crescimento e estabilidade econômica. A volatilidade trazida aos mercados pela guerra no Oriente Médio e as restrições comerciais impostas pelo governo norte-americano contra a China estão impactando os negócios de fusões e aquisições no Brasil, aumentando o número de investidores estratégicos da China e do Oriente Médio que buscam empresas no País e na América Latina. “Estamos vendo a substituição dos fundos de private equity (que compram empresas) pelos estratégicos e um interesse de investidores da China, por uma questão geopolítica e de tamanho do mercado brasileiro, enquanto Japão e Oriente Médio voltaram a ter grande interesse”, diz o co-CEO do Grupo Seneca, Daniel Wainstein. Esses fundos vêm perdendo espaço nas operações de fusões e aquisições, pressionados pelos juros altos e pela falta de IPOs, que dificulta a saída dos investimentos. Segundo Wainstein, a retração dos fundos ajuda a compor o ambiente favorável aos negócios desses investidores estratégicos, que olham para a “floresta”, ou seja, para o potencial brasileiro como um todo, e têm visão de longo prazo. “Os chineses vêm se preparando há bastante tempo para aproveitar este momento de oportunidade, em que há uma menor concorrência de fundos de um lado, e as empresas precisando de capital de outro”, acrescenta. Wainstein, que acaba de receber uma delegação de empreendedores chineses, observa também que o perfil do investidor chinês mudou, à medida que o foco se diversificou para além dos setores relacionados a interesses nacionais, como infraestrutura. Especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast afirmam que os grandes investimentos chineses ainda se concentram nos setores de energia elétrica, agronegócio e infraestrutura logística, mas o foco tem migrado para os segmentos de mineração, terras raras e energia solar. Esses últimos são, ao lado do setor automotivo, os que vêm sofrendo restrições dos Estados Unidos. “A tensão na relação China-Estados Unidos está tirando mercado deles e o Brasil, na parte automotiva, tem sido uma ótima opção”, diz o líder de Latam e Finanças Corporativas do Brasil da Kroll Corporate Finance, Alexandre Pierantoni. O Brasil, em contrapartida, criou benefícios para importação de veículos eletrificados, que terminam no final deste ano, sendo este um outro gatilho para a produção local. As montadoras chinesas BYD e GWM já investiram bilhões em fábricas para fabricarem seus veículos no País. Segundo Pierantoni, esse movimento está se ampliando e os chineses estão avançando para a cadeia de autopeças, onde se presencia uma “fortíssima” demanda. “Negócios ainda não estão sendo fechados, mas há muita prospecção dos chineses”, acrescenta. Pierantoni observa que a diversificação dos chineses em negócios de M&A não para por aí. Ele afirma que esses investidores olham empresas no entorno do setor de mineração, como equipamentos da linha amarela (máquinas pesadas) e explosivos. Também têm feito cheques menores do que o habitual para entrar em empresas que tenham conteúdo de tecnologia e inteligência artificial em segmentos nos quais já têm negócios, como agro e mineração. Para o líder de fusões e aquisições (M&A) do escritório Machado Meyer, Guilherme Bueno Malouf, o bom relacionamento entre Brasil e China acaba contribuindo para que haja esse crescimento de negócios chineses. “As questões geopolíticas são relevantes, não são declaradas nas transações, mas sabemos que, quando há alinhamento ideológico, há maior demanda”, disse. Malouf lembra ainda que o Brasil é um mercado estratégico e acredita que parte da guerra de tarifas dos Estados Unidos é uma reação ao avanço da China na América Latina e no Brasil em particular. “A China está a todo vapor”, diz a fundadora e CEO da consultoria de negócios internacionais NewCo, Martha Leonardis. Segundo ela, os investimentos chineses aumentaram US$ 2 bilhões no ano passado em relação a 2024, superando US$ 6 bilhões em 52 projetos. Leonardis nota que a China é mais madura do que o Oriente Médio em termos de investimentos no Brasil e que os investidores do Oriente Médio não olham para o Brasil especificamente, mas para a região, com um viés de expansão. Outra diferença é que, ao contrário dos chineses, que preferem ter o controle das companhias, o interesse do investidor do Oriente está, na maioria dos casos, em fatia minoritária, mas com direito a assento em conselho. “Eles não têm capital humano para assumir o controle de uma companhia”, diz. Apesar de estarem todos na mesma região, a forma de investir é diferente de um país para outro e orientada pelo momento que cada um vive, diz Leonardis. O conflito na região, por exemplo, fez alguns países se retraírem e olharem para desafios internos, entre eles Catar e Bahrein (que estava se abrindo a negócios no exterior), de acordo com ela. Também, os setores de hotelaria e imobiliário, que eram bastante procurados por alguns países do Oriente antes da guerra, saíram do mapa no atual contexto. Do outro lado, Oman, que tem um fundo soberano de cerca de US$ 50 bilhões, e a Arábia Saudita estão muito ativos na busca de oportunidades, mas o foco sempre está em empresas que tenham interesse em investir também em seus países. “Eles dão subsídios e benefícios para esse investimento lá, em parceria com os fundos soberanos, e isso é interessante para empresas brasileiras que buscam expandir negócios fora do Brasil”, afirma. Segundo ela, um terço do valor da aquisição tem de ser direcionado para negócio no país de origem. De acordo com ela, os setores que investidores de Omã e da Arábia Saudita têm prospectado são de infraestrutura, mineração, alimentação, terras raras e data centers, os dois últimos temas que entraram na agenda há poucos anos. “Estamos recebendo uma delegação de Omã que vem em novembro e já esteve em julho”, afirma. Leonardis diz que o potencial de investimento de Abu Dhabi é muito grande, dado que seu fundo soberano tem US$ 1,7 trilhão, mas o número de negócios fechados é muito menor do que as prospecções que fazem. Mineração e infraestrutura são os setores de maior interesse, mas também com um viés de contrapartida local. “É uma região greenfield, onde tudo é uma oportunidade, e, se pudessem, não investiriam na empresa, mas levariam apenas a força intelectual e tecnológica”, afirma. Em junho deste ano, o Abu Dhabi Ports Group, responsável por uma relevante infraestrutura marítima e de logística nos Emirados Árabes Unidos, adquiriu a Corredor Logística de Infraestrutura (CLI), no Porto de Itaqui, em São Luís (MA), por US$ 835 milhões (cerca de R$ 4 bilhões), marcando sua entrada nos portos brasileiros, dentro de uma estratégia de segurança alimentar. Até o início de 2025, os fundos soberanos dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã) já acumulavam mais de US$ 14 bilhões investidos no Brasil, segundo levantamento do Sovereign Wealth Fund Institute (SWFI) feito a pedido do Estadão/Broadcast. Leonardis nota que o número mostra que o capital do Golfo já tem peso material no Brasil, uma vez que só o estoque equivalia a pelo menos 1,2% de todo o estoque de investimento direto no país. Ao mesmo tempo, ele acrescenta que a estimativa é conservadora, já que cobre principalmente fundos soberanos e não captura integralmente empresas estratégicas, family offices, capital privado e operações sem valor público. Publicado em 18/09/2026 e disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/tensao-geopolitica-leva-chineses-e-investidores-do-oriente-medio-a-ampliar-apostas-no-brasil/

Valuations comprimidos no Brasil impulsionam onda de fechamentos de capital
Valuations comprimidos e volumes de negociação estagnados estão levando um número crescente de empresas a fechar seu capital no Brasil, reduzindo ainda mais o peso do país nos portfólios globais de ações. A bolsa de valores B3 SA registrou o fechamento de capital de 33 empresas desde 2024, segundo dados compilados pela Bloomberg. Ao menos seis novas ofertas públicas de aquisição já foram anunciadas, incluindo as de Banco Santander Brasil SA, Companhia Brasileira de Alumínio SA e Helbor Empreendimentos SA. Banqueiros de investimento, investidores e executivos da B3 atribuem esse movimento a diversos fatores. O principal deles são as taxas de juros persistentemente elevadas no Brasil. Com a Selic acima de 10% desde 2022, há poucos incentivos para enfrentar a volatilidade do mercado acionário. A instabilidade decorrente da guerra no Oriente Médio e o boom de inteligência artificial nos Estados Unidos e na Ásia também são apontados como fatores que vêm desviando recursos do país. “O mercado acionário brasileiro vem atravessando um período particularmente desafiador”, afirmou André Milanez, diretor financeiro da B3, em entrevista. As eleições presidenciais do próximo mês representam uma complicação adicional, acrescentou. “Naturalmente, os participantes do mercado preferem aguardar antes de tomar decisões” Somando se às dificuldades, o pipeline de ofertas públicas iniciais de ações no Brasil permanece praticamente vazio há anos. Em maio, a Compass SA tornou se a primeira empresa a realizar um IPO desde 2021, e banqueiros afirmam que não há expectativa de que outras empresas façam sua estreia na bolsa neste ano. Aquisições também explicam parte dessa tendência, segundo Fabio Nazari, responsável por Equity Capital Markets do Banco BTG Pactual SA. De acordo com a legislação brasileira, quando um novo acionista assume o controle de uma companhia, deve realizar uma oferta pública para adquirir as ações dos acionistas minoritários nas mesmas condições. Esse é o caso da Companhia Brasileira de Alumínio, que está sendo adquirida pela chinesa Chinalco e pela Rio Tinto. O Santander Brasil, cujos múltiplos de valuation estão em mínimas históricas em relação à controladora espanhola, será objeto de uma oferta pública por meio de uma troca de ações, prevista para o primeiro semestre de 2027. O BTG realizou a aquisição das ações em circulação de sua subsidiária Banco Pan em janeiro. O Grupo Indiana está incorporando sua subsidiária Neogrid, uma empresa de tecnologia e software, enquanto a companhia imobiliária HBR Realty Empreendimentos Imobiliários SA está incorporando a Helbor Empreendimentos SA como subsidiária e retirando suas ações da bolsa. “Se uma ação está sendo negociada abaixo do valor patrimonial, o melhor uso do capital do acionista controlador é comprar a participação detida pelo mercado, que deixou de ser um bom parceiro”, afirmou Daniel Wainstein, sócio fundador da boutique de investment banking Seneca Evercore. “Uma cotação baixa impede a empresa de captar mais capital via emissão de ações e, ao mesmo tempo, permanecer como uma companhia aberta exige uma quantidade enorme de trabalho”. Claudia Mesquita, responsável por Equity Capital Markets no Brasil no UBS BB Investment Banking, vê os fechamentos de capital como “uma consequência natural” do boom de 2020 e 2021, que levou à bolsa “emissores em diferentes estágios de maturidade”. A negociação de ações brasileiras diminuiu significativamente desde o pico de 2021, com o volume financeiro médio diário caindo quase 32%, para R$ 20,7 bilhões, ou US$ 4 bilhões, em 2025, segundo dados da B3. Os volumes se recuperaram neste ano, antes das eleições e com investidores estrangeiros diversificando suas posições para fora dos Estados Unidos, atingindo uma média de R$ 26,8 bilhões até julho, mas permanecem abaixo dos níveis observados durante o período de boom. A redução no número de empresas listadas mantém os investidores concentrados em um pequeno grupo de ações com elevada liquidez, que tende a gerar apenas retornos medianos, afirmou Christian Keleti, CEO da Alpha Key Capital. “Como os gestores de recursos têm os mesmos nomes em seus portfólios, eles perdem sua vantagem competitiva”, afirmou Keleti. Tendências semelhantes vêm ocorrendo nos principais mercados da América Latina. O número de empresas listadas no México e na Colômbia caiu cerca de 3% desde 2024, enquanto, no Chile, a queda foi de 1,6%, segundo dados das bolsas compilados pela Bloomberg. Mercados menores, como Argentina e Peru, registraram crescimento de pelo menos 3,7% no período. No Brasil, a queda foi mais acentuada, de 9%. “A onda mais recente de fechamentos de capital é um fenômeno mais brasileiro, porque os valuations aqui estão mais comprimidos”, afirmou Bruno Saraiva, co head de investment banking no Brasil e responsável por Equity Capital Markets para a América Latina no Bank of America. As ações brasileiras vêm sendo negociadas há anos a valuations inferiores aos da maioria dos pares latino americanos. Atualmente, são negociadas a 8,88 vezes o lucro estimado, aproximadamente 26% abaixo da média regional e cerca de 11% abaixo de sua própria média dos últimos dez anos. Os valuations baixos atraíram investidores estrangeiros no início de 2026, mas esse fluxo rapidamente se reverteu quando a guerra no Irã provocou uma disparada dos preços do petróleo e uma reprecificação das expectativas para as taxas de juros globais. Os investidores locais continuam retirando recursos do mercado, com os fundos de ações registrando saídas líquidas de R$ 8,15 bilhões neste ano até agosto. “Há um sentimento generalizado de frustração e decepção em relação ao Brasil”, afirmou Marcelo Millen, responsável por Equity Capital Markets para a América Latina no Citigroup. “Havia uma expectativa de chegar ao fim do ano com taxas de juros mais baixas, mas isso não vai se concretizar”. As perspectivas para IPOs neste ano parecem mais favoráveis em outras partes da América Latina. A argentina YPF Energia Eléctrica SA e a Genneia SA protocolaram pedidos para realizar ofertas nos Estados Unidos, com dupla listagem também na bolsa local. O mercado acionário “ignorado” da Colômbia pode ganhar impulso com um novo governo, afirmou Millen, enquanto as taxas de juros mais baixas e a inflação controlada no Chile colocam o país na posição “mais favorável” da região. Publicado em 15/09/2026 e disponível em: https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-09-15/brazil-s-depressed-valuations-drive-wave-of-stock-delistings

Lula não mostrou disciplina fiscal, mas sinal de Flávio aos cortes não é claro, diz co-CEO da Seneca
Para Daniel Wainstein, efeito dos juros na vida das pessoas é similar ao da inflação na década de 90, mas eleitores não percebem com clareza esse impacto em seu dia a dia e, por isso, candidatos não devem tratar do tema na campanha A Seneca Evercore lida com empresas em diferentes frentes: fusões e aquisições (M&A), reestruturação de dívidas, emissão de papéis de dívida (como certificados de recebíveis) e de ações. Negociou R$ 25 bilhões em M&As nos últimos cinco anos e emitiu R$ 2 bilhões em operações de dívidas nos últimos 12 meses. Com os negócios em alta, acaba de comprar um banco. Porém, em todas as áreas, diz Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca, os juros altos por um longo período têm tido um impacto nocivo sobre os clientes. “O Brasil não aguenta mais um ano com essa taxa de juros”, diz ele. “O empresário não aguenta.” Para ele, o presidente Lula e o candidato pelo PL, Flávio Bolsonaro, estão disputando cabeça a cabeça as eleições 2026 e nenhum dos dois deve sinalizar uma arrumação nas contas públicas até o pleito. Por isso, diz Wainstein, o mercado estará atento aos primeiros 100 dias de governo, quando tentará entender e se posicionar em relação à disciplina fiscal. Ele diz não saber se Lula quer ser lembrado como o pai dos pobres ou como o governo que apertou o ajuste fiscal e colocou a economia nos eixos. Sobre Flávio, o tema deve continuar sem apelo, por ser impopular. Porém, talvez seja mais efetivo nessa frente. Enquanto isso, população e empresas continuarão sofrendo com os efeitos dos juros altos. Segundo ele, esse impacto é tão negativo quanto o da inflação, antes da implantação do Plano Real. “A população está empregada, mas seu nível de renda é muito baixo”, afirma. Leia, a seguir, trechos da entrevista: Como o sr. está vendo o cenário eleitoral? Hoje, é 50% a 50% (as chances de Lula ou Flávio Bolsonaro vencerem as eleições). Normalmente, a gente fala que o presidente tem vantagem na disputa, mas o momento está longe de ser auspicioso para o incumbente. Se, na pandemia, com tudo aquilo que aconteceu e quando não tínhamos uma administração exatamente primorosa, o cenário já foi de praticamente 50-50, hoje, quando a economia não está muito bem, as empresas e os consumidores estão sofrendo muito, e a taxa de juros está alta, o governo atual está longe de ser popular. Mais do que nunca, o Flávio ou o Lula vão vencer no fotochart (sistema de fotos que determina o vencedor em competições esportivas muito apertadas). Há alguma expectativa do mercado? O mercado tem a expectativa de mais disciplina fiscal. Existe um debate muito pobre em termos de agenda econômica, mas o sentimento é de que a gente precisa de rigor fiscal muito maior, porque o grande imposto que a gente tem, que no passado foi a inflação, hoje é a taxa de juros. Não temos uma inflação alta, mas, por outro lado, esses juros reais, da forma que estão, inibem a iniciativa privada e sufocam as empresas. O faturamento dela cresce com a inflação sobre o preço dos bens, e o passivo, ou a dívida, cresce pelos juros. A maioria das empresas está lidando com uma inflação de 4%, 5% e, por outro lado, pagando 20%, 25% no seu passivo. A cada ano que passa, a situação vai ficando pior. Vemos isso nos números de pedidos de recuperação judicial. Isso ainda não se refletiu na estatística de desemprego, mas, na prática, a renda disponível é cada vez menor, justamente porque o consumidor também paga seus juros nesse nível. O cenário eleitoral que a gente vê hoje me parece o de alguma esperança de que pode haver alguma disciplina fiscal maior. Independentemente de quem ganhe? É mais difícil ver isso na continuidade do PT. Essa gestão não deu nenhum indício de disciplina fiscal durante o governo Lula, e os atos falam mais alto que as palavras. Existe alguma esperança de que algo que não seja o que está posto possa ser melhor. Mas é mais torcida do que algo concreto, porque o próprio discurso do Flávio Bolsonaro ainda não é tão evidente quanto à disciplina fiscal. Não é popular falar desse tema, mas deveria. Porque, hoje, o grande imposto da população são os juros reais. Para a população, os juros hoje são a inflação lá de trás? Exatamente isso — e afeta a todos indiscriminadamente, mas aqueles mais alavancados são os que mais pagam e os que menos podem. O que temos hoje, basicamente, é uma situação na qual investidores financeiros, que representavam cerca de 25% do volume de fusões e aquisições no Brasil em 2019, se tornaram menos de 6% este ano. Qual é o motivo? Primeiro, a economia não cresce de forma entusiasmante. Depois, a alternativa dos fundos de investimentos de private equity (que compram participações em companhias privadas, fazem-nas crescer e vendem-nas com lucro) para sair das empresas em que investiram — os IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) — não existe há um bom tempo. Já tem mais de cinco anos que a gente não tem uma janela real de IPOs, e os que foram feitos performaram muito mal. A tendência de abertura de nova janela é cada vez mais remota. Em terceiro, o modus operandi de private equity, em qualquer lugar do mundo, é por meio de alavancagem (usar recursos emprestados). Com os juros que estão aí, essa estratégia não funciona. Esses fundos acabaram tendo desempenho ruim de maneira geral, não conseguiram levantar mais capital e os internacionais acabaram saindo do Brasil. Por que esse termômetro de fusões e aquisições é importante? Ele mostra, de certa forma, a descrença dos investidores em relação a esse modelo de negócios. Também a descrença do investidor financeiro de que a taxa de juros básicos vá cair e de que a economia vá voltar a crescer. As empresas, sufocadas por uma taxa de juros tão alta, vivem a bola de neve que a gente está vendo hoje. O lado bom é que o investidor estratégico não financeiro continua tendo interesse no Brasil. Tenho visto principalmente a China extremamente interessada em ativos no Brasil, bem como investidores do Oriente Médio, do Japão. A Ásia parece que descobriu realmente o Brasil, enquanto os Estados Unidos estão com a relação altamente estremecida conosco. Mas, no momento em que as empresas não podem crescer, em que o consumidor não consegue consumir, a economia não cresce. Aí, cada vez mais, a disciplina fiscal se torna fundamental, o início de um ciclo virtuoso que a gente não vê acontecendo no curto prazo. Uma sinalização dos candidatos bastaria para mudar essa trajetória? Há ceticismo no mercado. O governo atual passou quatro anos fazendo o oposto. É difícil Flávio Bolsonaro sinalizar algo nesse sentido porque não soa popular. No início de 2027, o mercado vai estar extremamente atento às medidas que o governo vai tomar nos primeiros 100 dias, para poder avaliar o quanto realmente o governo tem ou não compromisso com essa agenda. Há uma consciência de que esse problema fiscal é tão grave quanto foi a inflação lá atrás, na época do Real? Não. O governo sabe, os empresários sabem, mas a população em geral está sofrendo com os juros, mas não é o mesmo impacto de ir ao supermercado e perceber que o preço subiu da noite para o dia. A população está empregada, mas seu nível de renda é muito baixo. O sr. enxerga uma crise como a do governo Dilma no horizonte? O Brasil não aguenta mais um ano com essa taxa de juros. O empresário não aguenta. No momento em que levar ao desemprego, pode ter realmente uma situação insustentável. A história diz que, quando falta renda mínima para a população ter um nível mínimo de subsistência, é quando há momentos disruptivos. O próximo governo precisa, desde o início, dar uma sinalização forte e agir para que a gente tenha uma situação minimamente sustentável para o empresário e, consequentemente, para o País como todo. O sr. vê alguma chance de terceira via? Não, não se consegue emplacar alguém que seja uma terceira via no cenário de hoje, infelizmente. Caso Flávio vença, o sr. vê algum risco institucional? No passado recente, a gente teve risco institucional. Quando o Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), conta em detalhes sobre a tentativa de golpe (no livro “Eu disse não: uma trincheira antigolpista”, que acaba de ser lançado), não tem por que desacreditar. É tapar o sol com a peneira, acreditar que a gente não teve risco de dissolução institucional. O 8 de janeiro foi um flerte muito grande com a disrupção. É inevitável lembrar do que aconteceu nas estradas no momento da eleição. Há risco de ruptura institucional, mas acredito ser baixo; nem existe uma precificação em relação a isso no mercado. É algo que pode ser considerado remoto, mas atribuir isso a zero é complexo. Caso Lula seja eleito, ele vai querer deixar um bom legado? O que é deixar um legado bom? Ser lembrado como o pai dos pobres? Ou como o governo que apertou o ajuste fiscal e conseguiu colocar a economia de volta nos eixos? Não sei exatamente como ele quer ser lembrado. Talvez ele acredite que possa adiar essa bomba-relógio e, basicamente, continuar tendo gastos do governo para medidas que a população precisa. Infelizmente, agora é preciso adotar medidas compatíveis com o Orçamento. A gastança que vemos hoje é incompatível com nossa situação fiscal. Como o sr. tem visto o cenário internacional? É muito difícil o Brasil manter sua posição histórica de neutralidade (nas relações diplomáticas), de certa forma, no momento geopolítico atual. De toda forma, o Brasil continua tendo um grande mercado consumidor, sendo um grande produtor de commodities e tendo potencial para investimentos em infraestrutura, no agro, na mineração, na energia... O Brasil continua sendo um lugar de interesse estratégico no mundo e interessa ao investidor internacional, especialmente chinês. Mas a situação mundial é de uma volta à Guerra Fria e com alta volatilidade no preço dos ativos. Como o sr. está posicionando os negócios? A gente acredita tanto no Brasil que estamos comprando um banco. Nosso negócio está indo surpreendentemente bem porque as empresas em dificuldade precisam fazer algo. Seja vender parte de seus negócios, seja renegociar ou alongar dívida, a gente acaba trabalhando na busca de uma solução. O estrangeiro quer vir para o Brasil, precisa de um assessor. O mercado de crédito está sofrendo, mas tem áreas, como o Minha Casa, Minha Vida, em que a gente tem trabalhado bastante. Ainda há bolsões geográficos no País que têm demanda reprimida por moradia, e o setor imobiliário é uma ilha que precisa de muito financiamento. No País existe hoje uma dinâmica de rouba-monte, em que os grandes bancos perdem participação para casas como a Seneca e outros independentes, seja no crédito, seja na gestão patrimonial, em cartões de crédito ou outros segmentos de serviços financeiros. Publicado em 10/09/2026 e disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/entrevista-daniel-wainstein-seneca-lula-flavio-fiscal/?srsltid=AU7gw4UNExTPwboi762JHjPtdc9OgW1uk65JCjsA8AWUqx8A9u_krr0t

Maioria das empresas que abriram capital desde 2016 vale menos que no IPO
Apenas 16 das 72 companhias ainda listadas registram alta em relação ao preço do IPO Somente 5 superaram Ibovespa no período; investidores devem avaliar ofertas com cuidado (Folha de S.Paulo) O retrato atual do que aconteceu na última década com as empresas que estrearam no mercado de ações levanta algumas questões importantes para o investidor e pode ser útil para encarar os próximos dez anos. Das 92 companhias que fizeram ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) na Bolsa brasileira desde 2016, 20 delas deixaram o mercado no período. Entre as 72 empresas que seguem listadas, somente 16 registram desempenho positivo em relação ao preço fixado no IPO até o dia 24 de abril, e apenas 5 superaram o índice Bovespa no período. Nesse bolo, há empresas de características e setores diversos —varejo e tecnologia concentraram quase 35% dos IPOs—, cujas performances se explicam por diferentes razões. Ainda assim, os números, fruto de um levantamento feito pela assessoria financeira especializada em fusões e aquisições e mercado de capitais Seneca Evercore, servem como um bom alerta aos investidores que embarcam em ofertas sem avaliar com calma o perfil e os objetivos das empresas que se propõem a entrar no mercado de ações, sobretudo em períodos de euforia. Isso é válido diante de um mercado que não vê operações há mais de quatro anos e ensaia registrar a primeira delas em breve, a despeito de ainda parecer distante de recobrar o vigor apresentado em 2020 e 2021, período em que se concentraram mais de 80% dos IPOs das companhias que entraram na Bolsa nos últimos dez anos e que ainda estão listadas. Na semana passada, a Compass Gás e Energia, empresa do grupo Cosan, anunciou seu plano de listagem em Bolsa —o único esperado pelo mercado em um momento em que temores em relação à inflação e aos juros altos se misturam. A previsão é que o preço final de venda por ação seja anunciado em 7 de maio. Rodrigo Mello, sócio-fundador da Seneca Evercore, diz que ter 56 de um total de 72 empresas listadas desde 2016 cujas ações valem hoje menos do que o preço fixado no IPO é ainda mais surpreendente diante do bom desempenho da Bolsa em 2026 e da abundância de recursos estrangeiros recebidos no período (mais de R$ 60 bilhões). "E isso não leva em conta, por exemplo, que o investidor poderia ter pego esse mesmo dinheiro e deixado no CDI. Olhando por aí, o prejuízo é ainda maior", diz Mello. Mello lembra, porém, que o investidor que decidiu entrar no IPO não perdeu dinheiro necessariamente porque no meio do caminho pode ter vendido o papel. Ainda assim, ressalta, chama a atenção que, do universo de 92 companhias que estrearam na Bolsa desde 2016 (incluindo aqui as que deixaram o mercado no período), em apenas 25% dos casos o desempenho das ações no primeiro ano após a listagem é positivo. Os 75% restantes apresentam retorno mediano negativo no primeiro ano após o IPO, com uma queda de 65% entre as 25% piores. Um ano, diz Mello, é um prazo relativamente curto para investimentos em ações, o que significa que, provavelmente, o prejuízo, nesse caso, tenha ficado com o investidor que entrou na oferta. Pedro Moura, analista de empresas da gestora Reach Capital, diz que, normalmente, uma oferta é malsucedida por uma conjunção de fatores: reversão do ciclo econômico, perspectivas de crescimento superestimadas, ou planos de investimento que não remuneram adequadamente o capital. No rol de empresas que testam a janela de abertura de mercado, diz Moura, há empresas em estágios de maturidade diferentes e, dependendo do ciclo do negócio, o IPO pode se provar inadequado para aquele momento. "Mas ex ante [antes do fato] é difícil fazer um julgamento objetivo, é muito caso a caso", diz. De modo a comparar os desempenhos das 72 empresas que abriram capital desde 2016 e continuam listadas na Bolsa, a assessoria também fez o exercício de calcular a taxa de crescimento anualizada das ações dessas companhias, dividindo-as em quatro grupos, com 18 empresas cada um. Enquanto o grupo 1, que reúne as ações com melhor retorno anual desde seus respectivos IPOs até o dia 24 de abril, apresenta alta média anual de 7,7%, o grupo 4, com os piores desempenhos acumulados, registra uma taxa de retorno média anual negativa de 43%. Segundo Mello, embora o levantamento abarque um período de dez anos, na prática, 61 das empresas listadas fizeram o IPO há cinco ou seis anos. De lá para cá, houve um grande e rápido salto nos juros, tornando os investimentos em renda fixa quase imbatíveis. A taxa básica de juros entrou 2021 em 2% ao ano, o piso histórico, chegando aos 15% em meados de 2025, recorde em quase 20 anos. Além disso, diz ele, juro alto e crescimento econômico mais baixo, entre outros fatores, causaram endividamento grande entre empresas que tomaram crédito quando o juro estava menor. "Todas as empresas com dívida sofrem, mas as que estão na Bolsa a gente consegue ver", diz Mello. Diante do desafio de fazer um bom investimento, Mello diz que os investidores precisam ser mais seletivos e, dado tudo o que passaram nesses anos, que tenham uma barra mais alta para só participar de ofertas de empresas que realmente tenham uma boa história e estejam prontas para acessar o mercado. Para Moura, da Reach, o investidor deve analisar as premissas e os motivos da abertura de capital pela empresa e avaliar se o projeto e o valor da companhia fazem sentido considerando o apetite individual a risco. "E, especialmente, evitar entrar em momentos de euforia generalizada." Publicado em 05/05/2026 e disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/05/maioria-das-empresas-que-abriram-capital-desde-2016-vale-menos-que-no-ipo.shtml

Em meio a abalo global, Brasil se destaca no radar de investidores internacionais
(O Globo) Guerra no Oriente Médio atrai para oportunidades do país, principalmente em commodities e energia, apesar dos entraves. Ajuste em gargalos internos pode estimular aportes, dizem especialistas O cenário geopolítico global recente — do tarifaço de Donald Trump à guerra no Oriente Médio — abriu uma janela de oportunidade para o Brasil atrair investimentos estrangeiros. E os olhares de fora já vão além dos recordes sucessivos da Bolsa de São Paulo, a B3, desde o início do ano. Enquanto o dólar perde força no mundo e investidores buscam negócios em economias emergentes, as prospecções de projetos de longo prazo por aqui estão se aquecendo, apontam analistas e consultores. Distante de áreas de conflito e com um acervo de recursos naturais cobiçados — de petróleo e fontes de energia renovável a terras férteis e minerais críticos —, o Brasil tem sido visto com um olhar mais benevolente, a despeito da proximidade de mais uma eleição presidencial acirrada e de persistentes entraves como a fragilidade fiscal e os juros altos. A comparação com outros países emergentes ajuda, mas, opinam especialistas, é um movimento ainda aquém do real potencial econômico brasileiro. Se saíssem de cena, incertezas jurídicas e regulatórias poderiam ajudar a atrair ainda mais capital de longo prazo. Por outro lado, os riscos do país tornam negócios por aqui mais baratos para quem vem de fora às compras. Além do forte fluxo para a Bolsa, bancos e consultorias brasileiras têm sido mais procurados, principalmente por grupos europeus e asiáticos interessados em fatias em empresas ou negócios inteiros. É um movimento ainda difuso, sem números consolidados, mas que já aparece em relatórios e comentários de financistas. — Estamos vendo um nível de transações melhor que o do ano passado, com maior interesse por ativos brasileiros, inclusive (empresas) de tamanho menor, sobretudo nas áreas de tecnologia, serviços financeiros, energia renovável, alimentação e também industrial — diz Isaias Sznifer, sócio-fundador da Seneca Evercore. — É um ano que se desenha para ser bom em transações. Ainda assim, ele avalia que é cedo para cravar que haverá crescimento nos aportes estrangeiros em projetos de longo prazo. Do lado de cá, empresários brasileiros tentam acelerar conversas para fechar negócios antes das eleições. — E como estamos há muito tempo sem IPO (oferta de novas ações em Bolsa), também vemos fundos reciclando seus portfólios, monetizando ativos, vendendo um negócio para dar retorno ao investidor e abrir novas frentes de investimento — diz. — Os múltiplos de transações no Brasil têm desconto na comparação com as do mercado desenvolvido justamente pelos riscos envolvidos. Isso não mudou. As concessões em infraestrutura são vistas como um ponto de captação desse interesse. Apesar do retorno menor, são ativos de desempenho mais estável e de longo prazo, explicam os especialistas. A recente revisão de contratos no setor de aeroportos, por exemplo, resultou em maior interesse de grupos estrangeiros pelo Galeão, no Rio. No fim do mês passado, a espanhola Aena arrematou o terminal por R$ 2,9 bilhões, 210% a mais que o valor mínimo do leilão. Num sinal de maior apetite pelo Brasil, o Mubadala Capital, braço de investimento privado do fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, acaba de formalizar seu terceiro fundo estratégico voltado para o país. O Brazil Special Opportunities Fund III soma mais de US$ 900 milhões em compromissos de investidores interessados no país, acima do objetivo inicial de US$ 750 milhões. O plano é comprar o controle de negócios em “situações complexas”. Entre aquisições já fechadas por aqui estão as das redes de alimentação Starbucks e Subway, por meio da Zamp, dona do Burger King. Negócios à venda O contexto interno de juros altos por longo tempo aproxima os empresários brasileiros das ofertas de fora. Com o caixa pressionado pelo aumento no custo de capital, o país bateu recorde de recuperações judiciais. Companhias fazem reestruturações financeiras e colocam ativos à venda para evitar esse desfecho. Em paralelo, as grandes corporações atraem aportes para a Bolsa. Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, diz que, nas condições globais de hoje, os ativos no Brasil, em geral, ficam ainda mais atraentes para investidores de fora que não têm encontrado perspectivas mais favoráveis em outros países: — A oportunidade aumentou. Isso não tem muito a ver com o brilho e a luz da história macroeconômica do Brasil, mas com a escuridão que nos rodeia. Seja o que for, a vantagem está aí. Só que, neste momento, esse sentimento positivo é muito circunstancial. As circunstâncias atuais acabam valorizando o fato de o Brasil estar longe das zonas de conflito. Enquanto a guerra na Ucrânia se arrasta e o Oriente Médio se mostra um barril de pólvora, a maior economia da América Latina não tem esse tipo de risco. Como grande exportador de commodities, principalmente de petróleo, minerais e alimentos, o Brasil experimenta um “choque positivo” em trocas comerciais, melhorando o desempenho da balança comercial. Tem ainda um grande mercado consumidor, energia abundante e um setor financeiro mais sofisticado que o de boa parte dos emergentes, a começar pelos vizinhos sul-americanos, destaca Ramos. Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos e professor de economia do Insper, ressalta ainda o feijão-com-arroz: o Brasil é uma democracia com instituições estáveis — a despeito dos desafios recentes —, avançou em algumas reformas , tem inflação em patamar aceitável e juros em trajetória de queda, direção oposta à tendência de vários outros países. Mas oferece seus próprios riscos, observa: — Não é que viramos vitrine nem a capa da The Economist, com o Cristo decolando de novo. É que o mundo está muito ruim. O Brasil ainda tem uma baita lição de casa para fazer. Ele faz referência à capa da revista britânica de 2009, que exibia o Cristo Redentor decolando, numa alusão aos indicadores econômicos do Brasil ascendentes. Nos anos seguintes, porém, a maré virou. O país perdeu o grau de investimento com a elevação de riscos a reboque de uma recessão. Os altos e baixos, somados a persistentes inseguranças jurídicas e regulatórias, cobram um preço dos ativos do país. Ganho com petróleo Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou de 1,6% para 1,9% a previsão para o país em 2026, destacando ganhos do Brasil na exportação de petróleo. Na direção contrária, o FMI alertou que a dívida pública bruta deve terminar o ano em 96,5% do PIB, batendo no patamar de 100% já em 2027. Em paralelo, cresce entre economistas a estimativa de que a inflação pode encerrar 2026 acima da meta. O vento que sopra de fora a favor do Brasil agora é consenso entre os especialistas, mas eles também concordam que a solução de gargalos históricos poderia destravar muito mais investimentos e acelerar o crescimento do país. No mercado financeiro, o comentário é que os desafios internos do Brasil acabam criando uma espécie de “desconto” nos investimentos direcionados ao setor produtivo. E mesmo onde o Brasil é promessa de ser uma potência, como em terras-raras, o desafio segue a mesma toada. Um executivo que acompanha transações no setor e está assessorando um fundo internacional interessado em investir nessa área conta que, de 30 projetos avaliados, apenas dois serão levados aos estrangeiros. Os demais foram descartados por riscos regulatórios, ambientais e logísticos. — Os EUA têm grande interesse por terras-raras, é algo muito promissor, de demanda em diversos setores. Mas não é só extrair, é negociar processamento. O diferencial da China é a capacidade de processamento. Isso abre a possibilidade de exportar um bem com maior valor agregado — pondera Marcio Sette Fortes, ex-executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e professor do Ibmec. Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ, a regulação é central nesse fronte, ou a desconfiança acaba desvalorizando os projetos. Ele salienta que o Brasil tem o equivalente a duas vezes o PIB do país em reservas de minerais críticos, mas ainda não definiu marco e estratégia claros. — Não é que o Brasil esteja barato. O país tem um enorme potencial, mas não é mais bem aproveitado pela fragilidade institucional e jurídica — diz o consultor. — Regulação frágil gera desconfiança. E tudo isso acaba sendo precificado. Incerteza dificulta Dumas, da GCB, pondera que os riscos, em geral, são conhecidos e precificados pelos investidores, mas o cenário de incerteza trava investimentos. Ele reconhece avanços, recentes como a Reforma Tributária e marcos regulatórios em setores como o saneamento, mas destaca como preocupante, por exemplo, a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, como mostram escândalos recentes. — Os ventos tendem a favorecer um pouco o Brasil. A magnitude disso vai depender um pouco da competência em tratar políticas que melhorem essa oportunidade — sublinha Ramos, do Goldman Sachs. — Apesar de, no curto prazo, estar recebendo mais, o Brasil recebe ainda muito menos investimentos que o seu potencial, em parte por falta de marcos regulatórios. E tem o tema fiscal, que piorou nos últimos anos. Não fosse isso, o Brasil estaria claramente voando. O atual patamar da taxa básica de juros — 14,75% ao ano — é apontado como o entrave número 1 da economia brasileira, porque influencia todos os setores e os custos das empresas. Mas há gargalos específicos até em segmentos atraentes aos estrangeiros e carros-chefes nacionais, caso da dependência do agronegócio de fertilizantes importados, cuja oferta recuou com a guerra no Irã, destaca Fortes: — Temos um gigante com o calcanhar de Aquiles completamente exposto. É preciso ampliar acesso a matérias-primas para a fabricação de fertilizantes no país. Publicado em 19/04/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2026/04/19/em-meio-a-abalo-global-brasil-se-destaca-no-radar-de-investidores-internacionais.ghtml

M&As têm o melhor trimestre desde 2021 e atraem estrangeiros
(Valor Econômico) Combinação da Odontoprev e Bradesco Seguros e venda da CBA para Chinalco e Rio Tinto foram os dois maiores negócios. O mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) no Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 em retomada, impulsionado por grandes operações e por uma corrida de empresas para fechar negócios antes do período eleitoral. Levantamento feito pela Seneca Evercore, entre janeiro e março, mostra que as operações movimentaram US$ 15,9 bilhões (cerca de R$ 82 bilhões no câmbio atual), alta de 30% em relação ao mesmo período do ano passado - o melhor resultado para o período desde 2021. O avanço, no entanto, veio concentrado em menos transações: 153 no trimestre, ante 198 um ano antes - um sinal de que o mercado voltou a girar puxado por negócios de maior porte. Dois deles responderam por uma fatia relevante do volume: a combinação entre Odontoprev e Bradesco Saúde (Bradsaúde), estimada em US$ 5,8 bilhões, e a venda da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), de US$ 1,9 bilhão, que pertencia ao grupo Votorantim, para a chinesa Chinalco e a anglo-australiana Rio Tinto. Para Daniel Wainstein, sócio da Seneca Evercore, o movimento reflete uma retomada dos M&As após dois anos mais fracos. “Muitas transações que tinham sido pausadas no ano passado voltaram neste início de ano.” Segundo ele, empresas e investidores buscam aproveitar um ambiente ainda mais previsível no primeiro semestre para concluir operações diante de um cenário potencialmente mais instável por causa das eleições presidenciais a partir do segundo semestre. Em 2025, as operações de M&A somaram US$ 58,4 bilhões. A incerteza política, diz, continua sendo um dos principais entraves para esse tipo de operação. “O que o mercado precisa é de menos incerteza. À medida que as pesquisas definam um cenário, fica mais fácil precificar ativos, pois a volatilidade diminui”, afirma. A expectativa, segundo ele, é que, com maior clareza sobre as eleições, as negociações avancem com mais fluidez. Ao mesmo tempo, há sinais de melhora no apetite externo. Investidores estrangeiros - especialmente americanos - voltaram a olhar com mais atenção para o Brasil. “Com a China fora do mapa estratégico atual dos Estados Unidos e a Índia já saturada de investimentos, o Brasil é a principal ‘terceira via’ entre os mercados emergentes de grande escala”, diz. Esse interesse tem se concentrado em setores como serviços financeiros, energia renovável e tecnologia. No sistema financeiro, há uma mudança em curso, com o avanço de plataformas independentes em áreas como gestão de patrimônio, seguros e crédito. “Existe uma verdadeira revolução no setor”, afirma. Segundo ele, esse movimento abre espaço tanto para novos investimentos quanto para fusões entre empresas menores. O ambiente de crédito também tem contribuído para esse cenário. Empresas brasileiras vêm alongando o perfil de suas dívidas, substituindo empréstimos de curto prazo por captações mais longas no mercado de capitais. Para Wainstein, esse alongamento da dívida permite que os planos de investimento das empresas pressionem menos a geração de caixa, criando valor para os acionistas. Com mais investidores ativos nesse mercado, companhias com estrutura de capital mais sólida têm aproveitado para consolidar setores fragmentados. “A oportunidade de fazer esse financiamento através de instrumentos de longo prazo muda muito o jogo”, afirma. No recorte por setores, tecnologia liderou o volume de transações no trimestre, com 18%, seguida por consumo e varejo, com 15%, e instituições financeiras, com 14%. Além dos grandes negócios em saúde e mineração, o relatório aponta operações em telecomunicações, envolvendo a IHS Towers e a Desktop, e no setor de energia, com a Wilson Sons e ativos da Petrobras. A expectativa é que o ritmo se mantenha no segundo trimestre. “A tendência é de continuidade da recuperação em relação a 2024 e 2025”, afirma Wainstein. A perspectiva de queda dos juros no longo prazo segue como um fator de estímulo, sobretudo para empresas que dependem mais de crescimento do que de grandes investimentos em ativos físicos, como as de tecnologia e educação. Publicado em 08/04/2026 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/04/08/m-as-tem-o-melhor-trimestre-desde-2021-e-atraem-estrangeiros.ghtml

Empresas asfixiadas: com juro alto, dívida dispara e pressiona o caixa
(O Globo) Número recorde de firmas recorre à recuperação extrajudicial. Endividamento somado de grandes companhias chega a R$ 1,7 trilhão, mostra levantamento. Este mês, a Raízen, gigante de Sadia CBF BRASIL biocombustíveis, iniciou uma recuperação extrajudicial (REJ), buscando uma saída para R$ 65 bilhões em dívidas. É o maior caso já registrado no Brasil. Na véspera, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) tomara o mesmo caminho. Um número recorde de empresas no país está recorrendo a esse mecanismo para renegociar dívidas com credores financeiros. Questões de gestão ou operacionais à parte, elas têm em comum as finanças asfixiadas pela combinação de um cenário econômico adverso, com taxa de juros nas alturas por um período prolongado, fazendo o custo do crédito disparar e comprimir o caixa. O corte de 0,25 ponto percentual da Selic, a taxa básica de juros, anunciado na última quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, levou a taxa a 14,75% ao ano; ainda assim, é o nível mais alto desde agosto de 2006. A taxa de referência saiu de 2%, em agosto de 2020, para 15% em junho do ano passado. Foi na bonança do juro a 2% que a tempestade começou a se formar. Empresas tomaram decisões de capital - investimentos e aquisições -, "pesando a mão"" no endividamento, diz Daniel Wainstein, CEO da Seneca Evercore. Com o salto da Selic, a dívida foi mordendo o caixa: - Se a empresa não está tendo crescimento real, basicamente o faturamento está crescendo 5% (ao ano), enquanto a dívida, 20% ou perto disso. Uma hora a conta chega. E isso vai compondo, crescimento sobre crescimento. Obviamente, levou a uma situação de crise de liquidez para muitas empresas no Brasil. É um descasamento bem delicado. Em 2025, 80 empresas recorreram à REJ, recorde da série histórica do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). E, neste ano, já foram sete casos. - A recuperação extrajudicial se tornou a alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para estruturar esse processo com eficiência - diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes Advogados. Para sanar as finanças, as empresas atuam em várias frentes, conta Daniella Fragoso, do BMA Advogados: - Em cenários assim, para levantar recursos, as empresas têm de, além de renegociar dívidas, recorrer à venda de ativos, ter um aporte feito pelo controlador ou trocar dívida por ações da companhia. Dívidas em alta A dívida de 129 companhias no país subiu de R$ 1,12 trilhão, em 2020, para R$ 1,71 trilhão no ano passado, alta de 53%, segundo levantamento do consultor de dados financeiros Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria, a pedido do GLOBO. Se a Petrobras for retirada desse grupo, o salto em endividamento é de 83%, passando de R$ 727 bilhões para R$ 1,33 trilhão. Foi nesse período que a taxa de juros foi de 2% para 15% ao ano, "evidenciando um ambiente financeiro significativamente mais restritivo para captação de recursos", diz ele: - Mesmo com juros elevados, as empresas continuaram ampliando dívida. Parte disso está associada à necessidade de investimentos eà rolagem de passivos, mas reflete a diversificação das fontes de captação, especialmente no exterior - diz Rivero, destacando que o endividamento também é afetado pelas condições globais de crédito e dólar. Outro fator pesando no caixa é o aumento da carga tributária, que passou de 31,2% do Produto Interno bruto (PIB), em 2022, para 32,3%. - As projeções para 2026 são de contínuo crescimento, o que já foi ilustrado pelo recorde de arrecadação em janeiro, de R$ 325,8 bilhões. Estima-se que, até o fim deste ano, a carga tributária possa até ultrapassar 34% do PIB. Nunca foi tão alta e se soma a outros "gargalos" da rotina empresarial, como a alta do dólar e dos juros - diz Maristela Ferreira de Souza Miglioli, do Ciari Moreira Advogados. Choque sistêmico O choque dos juros no Brasil é sistêmico e afeta empresas de todos os setores - de saúde, a exemplo da Oncoclínicas, a siderurgia, com a CSN (leia mais abaixo) -, mas o grau de impacto em cada companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação, diz Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação de empresas. Ele lembra que a Selic a 15% significa 18% a 30% na ponta do tomador, dependendo do spread bancário. Os casos da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, diz ele, expõem as ineficiências que eram mascaradas pelo dinheiro barato, com a Selic a 2%: - No varejo, o impacto é duplo. O setor já opera com margens espremidas. Quando a Selic sobe, o custo para financiar capital de giro e estoques explode, ao mesmo tempo em que o consumidor perde poder de compra. No agronegócio, as empresas se alavancaram para expandir enquanto a conta fechava. Com a virada dos juros, aliada a intempéries climáticas, quebras de safra e flutuação no preço das commodities, a geração de caixa não acompanhou o pagamento do serviço da dívida. No ano passado, foram 1.990 pedidos de recuperação judicial só no agro, salto de 56,4% ante 2024, segundo a Serasa Experian. É o maior patamar já registrado desde 2021, início da série. Para Fábio Astrauskas, da Siegen, consultoria em reestruturaçãо financeira, o desafio financeiro exige disciplina e visão estratégica: - As dívidas somadas de GPA e Raízen são maiores do que o gasto informado pelo Pentágono (dos EUA) na guerra contra o Irã nos seus primeiros seis dias (US$ 11,3 bilhões, ou cerca de R$ 60 bilhões). Mercado de capitais Para Wainstein, o cenário reflete a volatilidade a que está sujeito o mercado brasileiro, e as empresas médias tendem a sofrer ainda mais: - O índice de cobertura, que mede a capacidade de a empresa pagar seus custos de dívida (quanto menor o número, pior), nas médias empresas com ações em Bolsa atingiu 1,36x (vez), comparável ao de 2017. Nas maiores, que compõem o Ibovespa, está em 2,56x (vezes), menor nível desde 2020. Com o aperto nas finanças, as empresas passaram a renegociar dívidas. Esse movimento conta com a ajuda do avanço de captação no mercado de capitais. Dados do FGV Ibre mostram que empréstimos bancários estão perdendo espaço para títulos de dívida privada, que já somam um terço do crédito total corporativo. Guilherme Maranhão, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), avalia que o mercado de capitais ajudou a segurar o impacto dos juros altos na capacidade de pagamento e na qualidade creditícia das companhias: - Houve emissões de debêntures (títulos de dívida). Também cresceu a negociação de recebíveis, com maior volume de emissões de Fidcs e debêntures securitizadas (como CRI e CRA). Publicado em 22/03/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/22/empresas-asfixiadas-com-juro-alto-divida-dispara-e-pressiona-o-caixa.ghtml

Petróleo, energia, mineração: quais foram as maiores operações de fusão e aquisição do País em 2025
(Estadão) Mercado de M&A movimentou mais de US$ 58 bilhões no ano passado, um crescimento de 26,5% em relação a 2024 Impulsionado por operações de grande porte no setor de energia e recursos naturais, o mercado de fusões e aquisições no Brasil movimentou mais de US$ 58 bilhões em 2025. Segundo levantamento da Seneca Evercore, com base em dados da MergerMarket, o volume representa um avanço de 26,5% na comparação com 2024 (US$ 45 bilhões), apesar de uma queda de 3% no número total de transações. "O valor total é mais alto porque as maiores operações ocorreram em setores ligados a infraestrutura, em queo custo de capital e os investimentos necessários são maiores", diz Cleveland Prates, professor de economia da FGV-Law e de regulação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Evolução do mercado de fusões e aquisições no Brasil. Ao todo, 843 operações de fusões e aquisições aconteceram no País em 2025. O setor de energia e recursos naturais (como petróleo, mineração e celulose) foi responsável por mais 50% do valor total movimentado (mais de US$ 30 bilhões). Em 2020, essas operações representavam menos de 10% do volume. Mas, desde 2021, o segmento vem ganhando espaço, e o volume de movimentação foi o maior dos últimos 15 anos. "Um dos fatores que explicam esse movimento é a natureza mais resiliente do setor, que é menos expostos às flutuações do mercado doméstico e às incertezas políticas e econômicas do País", diz Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore. "А Selic alta tem tido um grande impacto na precificação das empresas." As maiores transações do ano A concentração setorial se reflete nas maiores transações do ano. Sete das 10 maiores transações realizadas no Brasil em 2025 foram no segmento de energia e recursos naturais, incluindo o maior negócio do ano: o Campo Offshore Peregrino. Em maio, a petroleira brasileira Prio adquiriu 60% da operação do campo de petróleo marítimo (offshore) localizado na Bacia de Campos, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. O negócio, estimado em US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 17,8 bilhões), foi assinado com a a norueguesa Equinor. A Prio tem como acionista de referência o empresário Nelson Tanure, e está avaliada em pouco mais de R$ 37 bilhões. "A Equinor está desinvestindo do setor, que já exploraram bastante, para investir em outros campos do Brasil. É algo normal neste mercado", diz Prates. A aquisição do campo Peregrino, porém, não foi a única grande movimentação do ano. A segunda posição do ranking é ocupada pelo negócio com a Serena Energia, que passou por uma oferta pública de aquisição (OPA) e pela reorganização de sua estrutura societária. Com o desinvestimento de parte da participação da Tarpon e a oferta liderada por um veículo de fundos ligado à Actis (em conjunto com o GIC), a operação movimentou cerca de US$ 2,8 bilhões e resultou no fechamento de capital da companhia. O terceiro maior negócio foi a compra da Eldorado Brasil pela J&F, após quase uma década de disputa com a Paper Excellence, por US$ 2,7 bilhões. Também chamam atenção a fusão entre a Marfrig e a BRF, que criou uma das maiores empresas de alimentos do mundo em um negócio de mais de US$ 2,25 bilhões, e a compra da fatia de 30% da Neonergia, da Previ, pela Iberdrola, em um acordo de US$ 2,2 bilhões e o aumento na participação da empresa na companhia elétrica para mais de 80%. Tração em 2026 e novas áreas promissoras Com a expectativa de queda dos juros, especialistas observam o mercado de fusões e aquisições com otimismo e projetam um 2026 mais ativo. O cenário, no entanto, ainda carrega riscos, como incertezas fiscais e o impacto do período eleitoral sobre os investidores. "A expectativa de queda da Selic voltou a aquecer o apetite para M&As", comenta Wainstein, da Seneca Evercore."Porém, discursos populistas e altos gastos governamentais podem segurar esse cenário." O executivo também observa a melhora na relação diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos como um combustível para este mercado. "Os EUA sempre foram o maior investidor e fonte de capital do País, mas tinham paralisado iniciativas. Nos últimos seis meses, a melhora no relacionamento fez com que eles olhassem com menos preconceito para cá", afirma. O prognóstico de Wainstein é que, com a queda nos juros e mais aportes internacionais, novos setores ganhem destaque. "Devemos ver um ano mais intenso, com mais transações dos segmentos de tecnologia, serviços financeiros, fintechs e gestoras de fundos", comenta. Por outro lado, Cleveland Prates entende que as transações que devem acontecer em 2026 vão além de fenômenos próprios do ano. "Raramente você prospecta, decide e compra no mesmo ano. Então, o que vai acontecer em 2026 já foi pensado em 2025", diz. "As oportunidades e desafios oriundos da economia brasileira deste ano devem começar a se consolidar a partir de 2027 ou 2028". Publicado em 15/01/2026 e disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/negocios/maiores-operacoes-fusao-aquisicao-brasil-2025/

‘Brasil terá corrida para fechar fusões antes da eleição’, diz sócio da Seneca Evercore
(O Globo) Os próximos meses devem ser agitados no universo das fusões e aquisições (M&As, no jargão do mercado), com uma corrida contra o tempo para concluir transações antes que a campanha eleitoral se imponha, diz Rodrigo Mello, sócio-fundador da assessoria financeira independente Seneca Evercore. — O ano de 2026 tende a ser difícil, mas o Brasil vai ter muita corrida para fechar M&As e operações no mercado de capitais em geral ainda no primeiro semestre. A razão, claro, é o calendário eleitoral — conta à coluna Mello, cuja Seneca Evercore atua assessorando empresas no momento das transações. O volume de M&As no Brasil deu um salto de 27% em 2025, segundo dados da MergerMarket compilados pela Seneca Evercore, batendo US$ 58 bilhões no ano passado. Apesar do crescimento da cifra, o número de operações cai 3% de um ano para o outro. — 2025 não foi um bom ano para o segmento, com a menor quantidade de transações em seis anos. Só que o volume em reais foi muito relevante, porque algumas operações envolveram cheques muito grandes, que jogaram a cifra para cima. Megaoperações Um exemplo foi a compra de uma fatia de 30,3% na Neoenergia, que atua em geração, transmissão e distribuição de energia, pela espanhola Iberdrola. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, recebeu R$ 11,9 bilhões por sua participação. Na sequência, a Iberdrola ainda anunciou uma OPA (oferta pública de aquisição) de R$ 6,5 bilhões para comprar as ações que estavam na mão de minoritários e tirar a Neoenergia da Bolsa. Daniel Wainstein, também sócio-fundador da Seneca Evercore, acredita que 2026 será melhor para fusões e aquisições, “com a Selic potencialmente atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar os preços dos ativos e, assim, induzir acionistas a voltar a considerar vendas de participação”. Além disso, “um custo de financiamento mais baixo pode ajudar compradores em busca de financiamento para suas aquisições”. Wainstein, Mello e outro sócio-fundador, Isaias Sznifer, trabalharam na Goldman Sachs e cofundaram a subsidiária do Greenhill & Co. no Brasil em 2013. Em 2020, compraram a participação do banco “gringo” na operação local e, na sequência, venderam 20% do negócio a outra instituição americana, a Evercore. Desde então, a operação adota o nome de Seneca Evercore. Publicado em 12/01/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2026/01/brasil-tera-corrida-para-fechar-fusoes-antes-da-eleicao-diz-socio-da-seneca-evercore.ghtml

Grandes operações deram o tom das aquisições em 2025
(Valor Econômico) Tendência, segundo executivos de bancos, é que setor de infraestrutura, incluindo energia, se mantenha aquecido para transações As operações de grande porte garantiram os volumes da indústria de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) no Brasil ao longo de 2025, um ano em que os juros altos deixaram mais caros os financiamentos dessas transações. Dados da consultoria Dealogic mostram que o volume anunciado ao longo do ano, considerando até metade de dezembro, somou R$ R$ 234 bilhões, em linha com o volume de 2024, de R$ 231 bilhões. A percepção é que em 2026 haverá algum incremento nos volumes, muito embora o calendário eleitoral tenha o potencial de afetar parte dos negócios, principalmente se houver volatilidade cambial, algo historicamente típico para o período, contexto que pode afastar investidores estrangeiros. A indústria chegou a um pico em 2021, na pandemia, quando movimentou R$ 482 bilhões. O responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, acredita que o volume de M&A no país vai se expandir cerca de 10% em 2026, para algo em torno de US$ 55 bilhões, com a fatia das operações envolvendo estrangeiros, chamadas de “cross border”, passando de 30% - marca de 2025 - para 35%. “Há muito interesse de europeu e asiático em Brasil." Entre as principais operações de 2025 está a compra da fatia da Eldorado antes detida pela Paper Excellence pela J&F, encerrando um longo imbróglio societário. Uma operação envolvendo duas empresas listadas foi a união entre Marfrig e BRF, que criou a gigante MBRF. Outra operação de grande porte envolveu a aquisição da fatia detida pelo fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ, na Neoenergia pela Iberdrola. Uma das principais transações envolveu a Prio, que concluiu a compra de 40% da operação do Campo de Peregrino (e Pitangola) da Equinor. Houve ainda, mais no fim do ano, a venda dos aeroportos da Motiva. O setor de tecnologia foi também destaque com transações peso-pesadas, como a venda da Conta Azul para a Visma. "Tivemos em 2025 um ano com mais diversificação de setores” — Diogo Aragão O chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenlees, lembra que no ano ainda somaram para os volumes de M&A transações de ofertas públicas de aquisição (OPAs) que resultaram em fechamento de capital, como a da Serena. O executivo aponta que o setor de energia “seguirá sendo um contribuinte relevante para os volumes de M&A em 2026". Levantamento da butique de M&A Seneca Evercore mostra que, ao longo de 2025, o setor de energia e recursos naturais representou uma fatia de 52% do total do volume transacionado, sendo que em 2020 foi de 10%. Conforme o sócio-fundador da Seneca, Daniel Wainstein, trata-se do maior volume desse segmento em 15 anos. “Acreditamos que 2026 pode ser um ano melhor para M&A, com a Selic atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar os preços dos ativos”, afirma. Com preços mais altos, acionistas podem voltar a considerar vender participações nas empresas. Apesar de mais operações nesses setores, que pesam na balança por serem multibilionárias, houve contribuição de mais segmentos ao longo de 2025. “Tivemos um ano com mais diversificação de setores”, comenta o responsável pela área de M&A do Bank of America (BofA) no Brasil, Diogo Aragão. Ele lembra que, no Brasil, o setor de infraestrutura segue tradicionalmente o mais ativo, dado o grau de maturidade dessa indústria. Segundo o executivo, muitas transações estão indo para a rua e sendo apresentadas para potenciais compradores com a intenção de fechar negócios já no início de 2026. “A partir de abril, o fluxo já fica condicionado às eleições”, afirma. A questão, segundo ele, é que eleições historicamente trazem efeitos ao câmbio, algo crítico para a tomada de decisão do investidor estrangeiro. André Moor, chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, diz que o banco entrou 2026 com o pipeline bastante robusto e que muitas transações "são impermeáveis às eleições", O destaque, frisa, segue em infraestrutura e energia. O responsável por M&A no Santander Brasil, Thiago Rocha, acredita que neste ano o tema eleição será de fato relevante, mas que as grandes transações seguem de forma independente. “2026 pode ser, de novo, um ano suportado por grandes transações, com um tamanho médio maior”, disse. Para o chefe da área de M&A do Goldman Sachs no Brasil, Pedro Muzzi, os volumes de M&A neste ano devem ser melhores do que em 2025. O executivo aponta que, na instituição financeira, a fila de operações tem crescido desde setembro. Um agente de mercado que deve voltar a movimentar os volumes da indústria de M&A, segundo ele, são os fundos de private equity, que, sem janela para aberturas de capital para seus desinvestimentos, devem optar pela venda de suas participações. “Eles precisam desinvestir para conseguir captar novos fundos”, diz. Por conta de volatilidade, muitas operações tiveram que contar com diferentes desenhos. O chefe da área de M&A do BTG Pactual, Alessandro Farkuh, afirma que o ano também foi marcado por transações mais estruturadas, algo que ocorreu exatamente por conta do cenário ainda de incerteza. “Em momentos como esse existe uma rediscussão enorme da forma mais inteligente de se alocar capital”, afirma Farkuh. “Há muitas transações que envolvem mercado de capitais e companhias de capital aberto”, complementa o executivo. Antonio Coutinho, que comanda o banco de investimento do Citi no Brasil, diz que o ambiente para transações de fusões e aquisições foi ficando mais positivo ao longo de 2025. “O ‘pipeline’ ainda está dominado pelas grandes transações de infraestrutura”, afirma Coutinho. Ele aponta, por outro lado, que as operações no setor de energia, que todos os anos são destaque, perderam força em 2025, com menos participação das empresas do setor de renováveis, que vivem desafios por conta do “curtailment” (redução forçada da geração de energia). Diego Mendes, corresponsável pela área de M&A da XP, diz que também espera um ano mais positivo para os negócios e que a melhora do desempenho das ações listadas ajuda a aproximar a percepção de valor dos ativos entre compradores e vendedores. Publicado em 05/01/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/01/05/grandes-operacoes-deram-o-tom-das-aquisicoes-em-2025.ghtml

Energia lidera fusões e aquisições em 2025, e juros influenciarão negócios em 2026
(InfoMoney) Entre janeiro e novembro de 2025, houve um aumento no volume das transações de fusões e aquisições de 18% na comparação com o mesmo período do ano anterior — isto é, a soma dos valores transacionados. No lado do número de negociações, no entanto, o valor caiu 25%. Os dados foram levantados pela boutique de M&A Seneca Evercore, a pedido do InfoMoney. “O aumento do volume transacionado se deve a algumas operações de grande porte, concentradas, sobretudo, nos setores de energia e recursos naturais, que englobam, por exemplo, empresas de geração e distribuição de energia, petróleo e gás, papel e celulose, e mineração”, explica o sócio-fundador da Seneca Evercore, Rodrigo Mello. A compra de participação do Campo Offshore Peregrino da Equinor pela PRIO por US$ 3,35 bilhões foi a maior operação do ano, seguida pela aquisição da Serena Energia pela Actis, em um desinvestimento da Tarpon, por US$ 2,82 bilhões. Também no setor de energia e recursos naturais, o terceiro maior negócio foi a compra da Eldorado Brasil pela J&F, após oito anos de disputa com a Paper Excellence. Desde 2021, o setor de energia tem ganhado espaço no mercado de M&A, saindo de 10% de representatividade no volume em 2020 para 54% em 2025. De janeiro a novembro deste ano, o volume transacionado em operações de energia e recursos naturais foi de US$ 28,2 bilhões, 47% superior na comparação com o mesmo período do ano anterior. “Um dos fatores que explicam esse movimento é a natureza mais resiliente desses setores, que são menos expostos às flutuações do mercado doméstico e às incertezas políticas e econômicas do país”, aponta Mello. É um cenário que não deve mudar tanto em 2026. Para o managing partner da 44 Capital, Guilherme Steagall, uma tendência do setor de M&As para o próximo ano é a consolidação em setores hoje muito regionalizados — o caso de alguns empreendimentos de geração de energia. “Há tentativas de consolidar essas capacidades. Muitos projetos de energia solar, por exemplo, são bem regionalizados, localizados. Temos visto muitos fundos e outros players levantando dinheiro especificamente para comprar grandes capacidades, em especial quando há PPA (contratos de longo prazo de compra de energia) associadas”, conta Steagall. Para o especialista, o maior número de transações, em 2026, deve se concentrar também em setores como logística, tecnologia, educação, infraestrutura. Segundo o estudo da Seneca, depois de energia e recursos naturais, consumo e varejo (14%), indústrias (9%), transporte e logística (8%) e tecnologia (7%) tiveram a maior representação em volumes de negócios. Negócios em 2026 Depois de mais um ano em que o setor de energia e recursos naturais foi destaque entre as fusões e aquisições no Brasil, os olhares se voltam para a política monetária. Para analistas consultados pelo InfoMoney, o comportamento dos juros deve impactar os preços de ativos e induzir vendas de participações, enquanto um patamar ainda elevado da Selic pode tornar os M&As uma alternativa de financiamento relevante. A expectativa por cortes na taxa básica de juros, hoje em 15% ao ano, é um elemento central nas projeções do mercado de M&As em 2026. “Pode ser um ano melhor, com a Selic potencialmente atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar preço dos ativos e, assim, induzir acionistas a voltar a considerar vendas de participação”, aponta Mello, da Seneca Evercore. Da mesma forma, ele avalia, um custo de financiamento mais baixo pode ajudar compradores em busca de financiamento para suas aquisições. Hoje, o mercado avalia que já no início do próximo ano o Banco Central inicie um ciclo de cortes nos juros. No último Boletim Focus, agentes do mercado diminuíram a projeção da taxa Selic de 12,25% para 12,13%. O documento, publicado em 15 de dezembro, reúne expectativas do mercado para a economia. Steagall pondera que juros ainda elevados devem fazer com que as fusões e aquisições se apresentem como uma alternativa ao financiamento das empresas. “É muito difícil se manter de forma independente com uma taxa de juros em um patamar de 15%, difícil ter rentabilidade. O mercado de M&A será uma solução: os ganhos de eficiência por meio da consolidação de atividades, em especial das cadeias logísticas e produtivas. É um caminho.” O executivo da 44 Capital projeta um perfil diferente nos negócios para o próximo ciclo. Sua avaliação é a de que, em 2026, sejam concretizadas mais transações com volume “um pouco menor” do que em 2025. “Empresas de tamanho médio terão um papel importante. Claro que vão ter novas fusões, mas esse racional se aplica muito às companhias médias”, aponta. Até novembro, foram 592 transações até novembro deste ano, com volume superior a US$ 52 bilhões. *Correção: Uma versão anterior deste texto falava em PPP (“Parcerias Público-Privadas”), em vez de PPA (Power Purchase Agreement) em energia solar e foi corrigida. Publicado em 17/12/2025 e disponível em: https://www.infomoney.com.br/business/energia-puxa-mas-em-2025-e-juros-devem-ser-determinantes-para-2026/

Investimento estrangeiro no país volta a subir, mas só deve virar operações de fusões e aquisições em 2026
(Valor Econômico) Entre as dez maiores transações de M&A em 2025, estrangeiros estiveram na ponta compradora em apenas duas, parcela bem inferior à de 2023, quando responderam por metade das principais operações. Após quedas consecutivas desde fevereiro, os Investimentos Diretos no País (IDPs) voltaram a crescer em setembro, segundo dados do Banco Central compilados pela Seneca Evercore e obtidos com exclusividade pelo Valor. No mês, os ingressos líquidos somaram US$ 10,7 bilhões — o maior volume para o período nos últimos cinco anos e o mais alto desde março de 2023, quando foram registrados US$ 10,8 bilhões. “O investidor, principalmente o americano, está mais confiante com a relação bilateral entre Brasil e EUA, com expectativa de queda gradual da Selic [taxa básica de juros] e sustentação do valor do real”, afirma Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore. Apesar da recuperação, esses recursos devem se refletir em novas operações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) apenas ao longo do primeiro semestre de 2026, afirma Wainstein. Isso porque esses processos costumam ser complexos e demandam meses até a conclusão. O relatório mensal da consultoria reforça essa avaliação. Em outubro, o número de transações de M&A caiu ao menor nível em cinco anos, totalizando 33 operações — menos até do que no início de 2020, auge da pandemia. De forma geral, 2025 não tem sido um ano favorável para operações de M&A. Entre janeiro e outubro, foram registradas 530 fusões e aquisições no Brasil, o menor patamar para o período desde 2020. Em valor, as transações somaram pouco mais de US$ 44 bilhões, superando apenas o resultado de 2023, segundo a Seneca. A participação do investidor estrangeiro também foi tímida. Entre as dez maiores transações de 2025, eles estiveram na ponta compradora em apenas duas, participação bem inferior à de 2023, quando responderam por metade das principais operações. “O último trimestre não deve mudar muito, mas estamos confiantes quanto a uma melhoria mais acentuada ao longo do primeiro semestre de 2026”, afirma Wainstein. Mesmo com o desempenho mais fraco, alguns setores seguem resilientes. Energia e recursos naturais, por exemplo, continuam em níveis recordes, tendo respondido por oito das dez maiores transações do ano, somando US$ 20,2 bilhões em valor. Publicado em 25/11/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/11/25/investimento-estrangeiro-no-pais-volta-a-subir-mas-so-deve-virar-operacoes-de-fusoes-e-aquisicoes-em-2026.ghtml
