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Maioria das empresas que abriram capital desde 2016 vale menos que no IPO
Apenas 16 das 72 companhias ainda listadas registram alta em relação ao preço do IPO Somente 5 superaram Ibovespa no período; investidores devem avaliar ofertas com cuidado (Folha de S.Paulo) O retrato atual do que aconteceu na última década com as empresas que estrearam no mercado de ações levanta algumas questões importantes para o investidor e pode ser útil para encarar os próximos dez anos. Das 92 companhias que fizeram ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) na Bolsa brasileira desde 2016, 20 delas deixaram o mercado no período. Entre as 72 empresas que seguem listadas, somente 16 registram desempenho positivo em relação ao preço fixado no IPO até o dia 24 de abril, e apenas 5 superaram o índice Bovespa no período. Nesse bolo, há empresas de características e setores diversos —varejo e tecnologia concentraram quase 35% dos IPOs—, cujas performances se explicam por diferentes razões. Ainda assim, os números, fruto de um levantamento feito pela assessoria financeira especializada em fusões e aquisições e mercado de capitais Seneca Evercore, servem como um bom alerta aos investidores que embarcam em ofertas sem avaliar com calma o perfil e os objetivos das empresas que se propõem a entrar no mercado de ações, sobretudo em períodos de euforia. Isso é válido diante de um mercado que não vê operações há mais de quatro anos e ensaia registrar a primeira delas em breve, a despeito de ainda parecer distante de recobrar o vigor apresentado em 2020 e 2021, período em que se concentraram mais de 80% dos IPOs das companhias que entraram na Bolsa nos últimos dez anos e que ainda estão listadas. Na semana passada, a Compass Gás e Energia, empresa do grupo Cosan, anunciou seu plano de listagem em Bolsa —o único esperado pelo mercado em um momento em que temores em relação à inflação e aos juros altos se misturam. A previsão é que o preço final de venda por ação seja anunciado em 7 de maio. Rodrigo Mello, sócio-fundador da Seneca Evercore, diz que ter 56 de um total de 72 empresas listadas desde 2016 cujas ações valem hoje menos do que o preço fixado no IPO é ainda mais surpreendente diante do bom desempenho da Bolsa em 2026 e da abundância de recursos estrangeiros recebidos no período (mais de R$ 60 bilhões). "E isso não leva em conta, por exemplo, que o investidor poderia ter pego esse mesmo dinheiro e deixado no CDI. Olhando por aí, o prejuízo é ainda maior", diz Mello. Mello lembra, porém, que o investidor que decidiu entrar no IPO não perdeu dinheiro necessariamente porque no meio do caminho pode ter vendido o papel. Ainda assim, ressalta, chama a atenção que, do universo de 92 companhias que estrearam na Bolsa desde 2016 (incluindo aqui as que deixaram o mercado no período), em apenas 25% dos casos o desempenho das ações no primeiro ano após a listagem é positivo. Os 75% restantes apresentam retorno mediano negativo no primeiro ano após o IPO, com uma queda de 65% entre as 25% piores. Um ano, diz Mello, é um prazo relativamente curto para investimentos em ações, o que significa que, provavelmente, o prejuízo, nesse caso, tenha ficado com o investidor que entrou na oferta. Pedro Moura, analista de empresas da gestora Reach Capital, diz que, normalmente, uma oferta é malsucedida por uma conjunção de fatores: reversão do ciclo econômico, perspectivas de crescimento superestimadas, ou planos de investimento que não remuneram adequadamente o capital. No rol de empresas que testam a janela de abertura de mercado, diz Moura, há empresas em estágios de maturidade diferentes e, dependendo do ciclo do negócio, o IPO pode se provar inadequado para aquele momento. "Mas ex ante [antes do fato] é difícil fazer um julgamento objetivo, é muito caso a caso", diz. De modo a comparar os desempenhos das 72 empresas que abriram capital desde 2016 e continuam listadas na Bolsa, a assessoria também fez o exercício de calcular a taxa de crescimento anualizada das ações dessas companhias, dividindo-as em quatro grupos, com 18 empresas cada um. Enquanto o grupo 1, que reúne as ações com melhor retorno anual desde seus respectivos IPOs até o dia 24 de abril, apresenta alta média anual de 7,7%, o grupo 4, com os piores desempenhos acumulados, registra uma taxa de retorno média anual negativa de 43%. Segundo Mello, embora o levantamento abarque um período de dez anos, na prática, 61 das empresas listadas fizeram o IPO há cinco ou seis anos. De lá para cá, houve um grande e rápido salto nos juros, tornando os investimentos em renda fixa quase imbatíveis. A taxa básica de juros entrou 2021 em 2% ao ano, o piso histórico, chegando aos 15% em meados de 2025, recorde em quase 20 anos. Além disso, diz ele, juro alto e crescimento econômico mais baixo, entre outros fatores, causaram endividamento grande entre empresas que tomaram crédito quando o juro estava menor. "Todas as empresas com dívida sofrem, mas as que estão na Bolsa a gente consegue ver", diz Mello. Diante do desafio de fazer um bom investimento, Mello diz que os investidores precisam ser mais seletivos e, dado tudo o que passaram nesses anos, que tenham uma barra mais alta para só participar de ofertas de empresas que realmente tenham uma boa história e estejam prontas para acessar o mercado. Para Moura, da Reach, o investidor deve analisar as premissas e os motivos da abertura de capital pela empresa e avaliar se o projeto e o valor da companhia fazem sentido considerando o apetite individual a risco. "E, especialmente, evitar entrar em momentos de euforia generalizada." Publicado em 05/05/2026 e disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/05/maioria-das-empresas-que-abriram-capital-desde-2016-vale-menos-que-no-ipo.shtml

Em meio a abalo global, Brasil se destaca no radar de investidores internacionais
(O Globo) Guerra no Oriente Médio atrai para oportunidades do país, principalmente em commodities e energia, apesar dos entraves. Ajuste em gargalos internos pode estimular aportes, dizem especialistas O cenário geopolítico global recente — do tarifaço de Donald Trump à guerra no Oriente Médio — abriu uma janela de oportunidade para o Brasil atrair investimentos estrangeiros. E os olhares de fora já vão além dos recordes sucessivos da Bolsa de São Paulo, a B3, desde o início do ano. Enquanto o dólar perde força no mundo e investidores buscam negócios em economias emergentes, as prospecções de projetos de longo prazo por aqui estão se aquecendo, apontam analistas e consultores. Distante de áreas de conflito e com um acervo de recursos naturais cobiçados — de petróleo e fontes de energia renovável a terras férteis e minerais críticos —, o Brasil tem sido visto com um olhar mais benevolente, a despeito da proximidade de mais uma eleição presidencial acirrada e de persistentes entraves como a fragilidade fiscal e os juros altos. A comparação com outros países emergentes ajuda, mas, opinam especialistas, é um movimento ainda aquém do real potencial econômico brasileiro. Se saíssem de cena, incertezas jurídicas e regulatórias poderiam ajudar a atrair ainda mais capital de longo prazo. Por outro lado, os riscos do país tornam negócios por aqui mais baratos para quem vem de fora às compras. Além do forte fluxo para a Bolsa, bancos e consultorias brasileiras têm sido mais procurados, principalmente por grupos europeus e asiáticos interessados em fatias em empresas ou negócios inteiros. É um movimento ainda difuso, sem números consolidados, mas que já aparece em relatórios e comentários de financistas. — Estamos vendo um nível de transações melhor que o do ano passado, com maior interesse por ativos brasileiros, inclusive (empresas) de tamanho menor, sobretudo nas áreas de tecnologia, serviços financeiros, energia renovável, alimentação e também industrial — diz Isaias Sznifer, sócio-fundador da Seneca Evercore. — É um ano que se desenha para ser bom em transações. Ainda assim, ele avalia que é cedo para cravar que haverá crescimento nos aportes estrangeiros em projetos de longo prazo. Do lado de cá, empresários brasileiros tentam acelerar conversas para fechar negócios antes das eleições. — E como estamos há muito tempo sem IPO (oferta de novas ações em Bolsa), também vemos fundos reciclando seus portfólios, monetizando ativos, vendendo um negócio para dar retorno ao investidor e abrir novas frentes de investimento — diz. — Os múltiplos de transações no Brasil têm desconto na comparação com as do mercado desenvolvido justamente pelos riscos envolvidos. Isso não mudou. As concessões em infraestrutura são vistas como um ponto de captação desse interesse. Apesar do retorno menor, são ativos de desempenho mais estável e de longo prazo, explicam os especialistas. A recente revisão de contratos no setor de aeroportos, por exemplo, resultou em maior interesse de grupos estrangeiros pelo Galeão, no Rio. No fim do mês passado, a espanhola Aena arrematou o terminal por R$ 2,9 bilhões, 210% a mais que o valor mínimo do leilão. Num sinal de maior apetite pelo Brasil, o Mubadala Capital, braço de investimento privado do fundo soberano de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, acaba de formalizar seu terceiro fundo estratégico voltado para o país. O Brazil Special Opportunities Fund III soma mais de US$ 900 milhões em compromissos de investidores interessados no país, acima do objetivo inicial de US$ 750 milhões. O plano é comprar o controle de negócios em “situações complexas”. Entre aquisições já fechadas por aqui estão as das redes de alimentação Starbucks e Subway, por meio da Zamp, dona do Burger King. Negócios à venda O contexto interno de juros altos por longo tempo aproxima os empresários brasileiros das ofertas de fora. Com o caixa pressionado pelo aumento no custo de capital, o país bateu recorde de recuperações judiciais. Companhias fazem reestruturações financeiras e colocam ativos à venda para evitar esse desfecho. Em paralelo, as grandes corporações atraem aportes para a Bolsa. Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, diz que, nas condições globais de hoje, os ativos no Brasil, em geral, ficam ainda mais atraentes para investidores de fora que não têm encontrado perspectivas mais favoráveis em outros países: — A oportunidade aumentou. Isso não tem muito a ver com o brilho e a luz da história macroeconômica do Brasil, mas com a escuridão que nos rodeia. Seja o que for, a vantagem está aí. Só que, neste momento, esse sentimento positivo é muito circunstancial. As circunstâncias atuais acabam valorizando o fato de o Brasil estar longe das zonas de conflito. Enquanto a guerra na Ucrânia se arrasta e o Oriente Médio se mostra um barril de pólvora, a maior economia da América Latina não tem esse tipo de risco. Como grande exportador de commodities, principalmente de petróleo, minerais e alimentos, o Brasil experimenta um “choque positivo” em trocas comerciais, melhorando o desempenho da balança comercial. Tem ainda um grande mercado consumidor, energia abundante e um setor financeiro mais sofisticado que o de boa parte dos emergentes, a começar pelos vizinhos sul-americanos, destaca Ramos. Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos e professor de economia do Insper, ressalta ainda o feijão-com-arroz: o Brasil é uma democracia com instituições estáveis — a despeito dos desafios recentes —, avançou em algumas reformas , tem inflação em patamar aceitável e juros em trajetória de queda, direção oposta à tendência de vários outros países. Mas oferece seus próprios riscos, observa: — Não é que viramos vitrine nem a capa da The Economist, com o Cristo decolando de novo. É que o mundo está muito ruim. O Brasil ainda tem uma baita lição de casa para fazer. Ele faz referência à capa da revista britânica de 2009, que exibia o Cristo Redentor decolando, numa alusão aos indicadores econômicos do Brasil ascendentes. Nos anos seguintes, porém, a maré virou. O país perdeu o grau de investimento com a elevação de riscos a reboque de uma recessão. Os altos e baixos, somados a persistentes inseguranças jurídicas e regulatórias, cobram um preço dos ativos do país. Ganho com petróleo Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou de 1,6% para 1,9% a previsão para o país em 2026, destacando ganhos do Brasil na exportação de petróleo. Na direção contrária, o FMI alertou que a dívida pública bruta deve terminar o ano em 96,5% do PIB, batendo no patamar de 100% já em 2027. Em paralelo, cresce entre economistas a estimativa de que a inflação pode encerrar 2026 acima da meta. O vento que sopra de fora a favor do Brasil agora é consenso entre os especialistas, mas eles também concordam que a solução de gargalos históricos poderia destravar muito mais investimentos e acelerar o crescimento do país. No mercado financeiro, o comentário é que os desafios internos do Brasil acabam criando uma espécie de “desconto” nos investimentos direcionados ao setor produtivo. E mesmo onde o Brasil é promessa de ser uma potência, como em terras-raras, o desafio segue a mesma toada. Um executivo que acompanha transações no setor e está assessorando um fundo internacional interessado em investir nessa área conta que, de 30 projetos avaliados, apenas dois serão levados aos estrangeiros. Os demais foram descartados por riscos regulatórios, ambientais e logísticos. — Os EUA têm grande interesse por terras-raras, é algo muito promissor, de demanda em diversos setores. Mas não é só extrair, é negociar processamento. O diferencial da China é a capacidade de processamento. Isso abre a possibilidade de exportar um bem com maior valor agregado — pondera Marcio Sette Fortes, ex-executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e professor do Ibmec. Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da consultoria BMJ, a regulação é central nesse fronte, ou a desconfiança acaba desvalorizando os projetos. Ele salienta que o Brasil tem o equivalente a duas vezes o PIB do país em reservas de minerais críticos, mas ainda não definiu marco e estratégia claros. — Não é que o Brasil esteja barato. O país tem um enorme potencial, mas não é mais bem aproveitado pela fragilidade institucional e jurídica — diz o consultor. — Regulação frágil gera desconfiança. E tudo isso acaba sendo precificado. Incerteza dificulta Dumas, da GCB, pondera que os riscos, em geral, são conhecidos e precificados pelos investidores, mas o cenário de incerteza trava investimentos. Ele reconhece avanços, recentes como a Reforma Tributária e marcos regulatórios em setores como o saneamento, mas destaca como preocupante, por exemplo, a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, como mostram escândalos recentes. — Os ventos tendem a favorecer um pouco o Brasil. A magnitude disso vai depender um pouco da competência em tratar políticas que melhorem essa oportunidade — sublinha Ramos, do Goldman Sachs. — Apesar de, no curto prazo, estar recebendo mais, o Brasil recebe ainda muito menos investimentos que o seu potencial, em parte por falta de marcos regulatórios. E tem o tema fiscal, que piorou nos últimos anos. Não fosse isso, o Brasil estaria claramente voando. O atual patamar da taxa básica de juros — 14,75% ao ano — é apontado como o entrave número 1 da economia brasileira, porque influencia todos os setores e os custos das empresas. Mas há gargalos específicos até em segmentos atraentes aos estrangeiros e carros-chefes nacionais, caso da dependência do agronegócio de fertilizantes importados, cuja oferta recuou com a guerra no Irã, destaca Fortes: — Temos um gigante com o calcanhar de Aquiles completamente exposto. É preciso ampliar acesso a matérias-primas para a fabricação de fertilizantes no país. Publicado em 19/04/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2026/04/19/em-meio-a-abalo-global-brasil-se-destaca-no-radar-de-investidores-internacionais.ghtml

M&As têm o melhor trimestre desde 2021 e atraem estrangeiros
(Valor Econômico) Combinação da Odontoprev e Bradesco Seguros e venda da CBA para Chinalco e Rio Tinto foram os dois maiores negócios. O mercado de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) no Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2026 em retomada, impulsionado por grandes operações e por uma corrida de empresas para fechar negócios antes do período eleitoral. Levantamento feito pela Seneca Evercore, entre janeiro e março, mostra que as operações movimentaram US$ 15,9 bilhões (cerca de R$ 82 bilhões no câmbio atual), alta de 30% em relação ao mesmo período do ano passado - o melhor resultado para o período desde 2021. O avanço, no entanto, veio concentrado em menos transações: 153 no trimestre, ante 198 um ano antes - um sinal de que o mercado voltou a girar puxado por negócios de maior porte. Dois deles responderam por uma fatia relevante do volume: a combinação entre Odontoprev e Bradesco Saúde (Bradsaúde), estimada em US$ 5,8 bilhões, e a venda da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), de US$ 1,9 bilhão, que pertencia ao grupo Votorantim, para a chinesa Chinalco e a anglo-australiana Rio Tinto. Para Daniel Wainstein, sócio da Seneca Evercore, o movimento reflete uma retomada dos M&As após dois anos mais fracos. “Muitas transações que tinham sido pausadas no ano passado voltaram neste início de ano.” Segundo ele, empresas e investidores buscam aproveitar um ambiente ainda mais previsível no primeiro semestre para concluir operações diante de um cenário potencialmente mais instável por causa das eleições presidenciais a partir do segundo semestre. Em 2025, as operações de M&A somaram US$ 58,4 bilhões. A incerteza política, diz, continua sendo um dos principais entraves para esse tipo de operação. “O que o mercado precisa é de menos incerteza. À medida que as pesquisas definam um cenário, fica mais fácil precificar ativos, pois a volatilidade diminui”, afirma. A expectativa, segundo ele, é que, com maior clareza sobre as eleições, as negociações avancem com mais fluidez. Ao mesmo tempo, há sinais de melhora no apetite externo. Investidores estrangeiros - especialmente americanos - voltaram a olhar com mais atenção para o Brasil. “Com a China fora do mapa estratégico atual dos Estados Unidos e a Índia já saturada de investimentos, o Brasil é a principal ‘terceira via’ entre os mercados emergentes de grande escala”, diz. Esse interesse tem se concentrado em setores como serviços financeiros, energia renovável e tecnologia. No sistema financeiro, há uma mudança em curso, com o avanço de plataformas independentes em áreas como gestão de patrimônio, seguros e crédito. “Existe uma verdadeira revolução no setor”, afirma. Segundo ele, esse movimento abre espaço tanto para novos investimentos quanto para fusões entre empresas menores. O ambiente de crédito também tem contribuído para esse cenário. Empresas brasileiras vêm alongando o perfil de suas dívidas, substituindo empréstimos de curto prazo por captações mais longas no mercado de capitais. Para Wainstein, esse alongamento da dívida permite que os planos de investimento das empresas pressionem menos a geração de caixa, criando valor para os acionistas. Com mais investidores ativos nesse mercado, companhias com estrutura de capital mais sólida têm aproveitado para consolidar setores fragmentados. “A oportunidade de fazer esse financiamento através de instrumentos de longo prazo muda muito o jogo”, afirma. No recorte por setores, tecnologia liderou o volume de transações no trimestre, com 18%, seguida por consumo e varejo, com 15%, e instituições financeiras, com 14%. Além dos grandes negócios em saúde e mineração, o relatório aponta operações em telecomunicações, envolvendo a IHS Towers e a Desktop, e no setor de energia, com a Wilson Sons e ativos da Petrobras. A expectativa é que o ritmo se mantenha no segundo trimestre. “A tendência é de continuidade da recuperação em relação a 2024 e 2025”, afirma Wainstein. A perspectiva de queda dos juros no longo prazo segue como um fator de estímulo, sobretudo para empresas que dependem mais de crescimento do que de grandes investimentos em ativos físicos, como as de tecnologia e educação. Publicado em 08/04/2026 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/04/08/m-as-tem-o-melhor-trimestre-desde-2021-e-atraem-estrangeiros.ghtml

Empresas asfixiadas: com juro alto, dívida dispara e pressiona o caixa
(O Globo) Número recorde de firmas recorre à recuperação extrajudicial. Endividamento somado de grandes companhias chega a R$ 1,7 trilhão, mostra levantamento. Este mês, a Raízen, gigante de Sadia CBF BRASIL biocombustíveis, iniciou uma recuperação extrajudicial (REJ), buscando uma saída para R$ 65 bilhões em dívidas. É o maior caso já registrado no Brasil. Na véspera, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) tomara o mesmo caminho. Um número recorde de empresas no país está recorrendo a esse mecanismo para renegociar dívidas com credores financeiros. Questões de gestão ou operacionais à parte, elas têm em comum as finanças asfixiadas pela combinação de um cenário econômico adverso, com taxa de juros nas alturas por um período prolongado, fazendo o custo do crédito disparar e comprimir o caixa. O corte de 0,25 ponto percentual da Selic, a taxa básica de juros, anunciado na última quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, levou a taxa a 14,75% ao ano; ainda assim, é o nível mais alto desde agosto de 2006. A taxa de referência saiu de 2%, em agosto de 2020, para 15% em junho do ano passado. Foi na bonança do juro a 2% que a tempestade começou a se formar. Empresas tomaram decisões de capital - investimentos e aquisições -, "pesando a mão"" no endividamento, diz Daniel Wainstein, CEO da Seneca Evercore. Com o salto da Selic, a dívida foi mordendo o caixa: - Se a empresa não está tendo crescimento real, basicamente o faturamento está crescendo 5% (ao ano), enquanto a dívida, 20% ou perto disso. Uma hora a conta chega. E isso vai compondo, crescimento sobre crescimento. Obviamente, levou a uma situação de crise de liquidez para muitas empresas no Brasil. É um descasamento bem delicado. Em 2025, 80 empresas recorreram à REJ, recorde da série histórica do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). E, neste ano, já foram sete casos. - A recuperação extrajudicial se tornou a alternativa natural para empresas que ainda mantêm condições de negociação com seus principais credores, têm algum fluxo de caixa, mas precisam de um tempo para estruturar esse processo com eficiência - diz Brenno Mussolin Nogueira, do Rayes e Fagundes Advogados. Para sanar as finanças, as empresas atuam em várias frentes, conta Daniella Fragoso, do BMA Advogados: - Em cenários assim, para levantar recursos, as empresas têm de, além de renegociar dívidas, recorrer à venda de ativos, ter um aporte feito pelo controlador ou trocar dívida por ações da companhia. Dívidas em alta A dívida de 129 companhias no país subiu de R$ 1,12 trilhão, em 2020, para R$ 1,71 trilhão no ano passado, alta de 53%, segundo levantamento do consultor de dados financeiros Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria, a pedido do GLOBO. Se a Petrobras for retirada desse grupo, o salto em endividamento é de 83%, passando de R$ 727 bilhões para R$ 1,33 trilhão. Foi nesse período que a taxa de juros foi de 2% para 15% ao ano, "evidenciando um ambiente financeiro significativamente mais restritivo para captação de recursos", diz ele: - Mesmo com juros elevados, as empresas continuaram ampliando dívida. Parte disso está associada à necessidade de investimentos eà rolagem de passivos, mas reflete a diversificação das fontes de captação, especialmente no exterior - diz Rivero, destacando que o endividamento também é afetado pelas condições globais de crédito e dólar. Outro fator pesando no caixa é o aumento da carga tributária, que passou de 31,2% do Produto Interno bruto (PIB), em 2022, para 32,3%. - As projeções para 2026 são de contínuo crescimento, o que já foi ilustrado pelo recorde de arrecadação em janeiro, de R$ 325,8 bilhões. Estima-se que, até o fim deste ano, a carga tributária possa até ultrapassar 34% do PIB. Nunca foi tão alta e se soma a outros "gargalos" da rotina empresarial, como a alta do dólar e dos juros - diz Maristela Ferreira de Souza Miglioli, do Ciari Moreira Advogados. Choque sistêmico O choque dos juros no Brasil é sistêmico e afeta empresas de todos os setores - de saúde, a exemplo da Oncoclínicas, a siderurgia, com a CSN (leia mais abaixo) -, mas o grau de impacto em cada companhia depende da estrutura de capital e da eficiência da operação, diz Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, especialista em reestruturação de empresas. Ele lembra que a Selic a 15% significa 18% a 30% na ponta do tomador, dependendo do spread bancário. Os casos da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, diz ele, expõem as ineficiências que eram mascaradas pelo dinheiro barato, com a Selic a 2%: - No varejo, o impacto é duplo. O setor já opera com margens espremidas. Quando a Selic sobe, o custo para financiar capital de giro e estoques explode, ao mesmo tempo em que o consumidor perde poder de compra. No agronegócio, as empresas se alavancaram para expandir enquanto a conta fechava. Com a virada dos juros, aliada a intempéries climáticas, quebras de safra e flutuação no preço das commodities, a geração de caixa não acompanhou o pagamento do serviço da dívida. No ano passado, foram 1.990 pedidos de recuperação judicial só no agro, salto de 56,4% ante 2024, segundo a Serasa Experian. É o maior patamar já registrado desde 2021, início da série. Para Fábio Astrauskas, da Siegen, consultoria em reestruturaçãо financeira, o desafio financeiro exige disciplina e visão estratégica: - As dívidas somadas de GPA e Raízen são maiores do que o gasto informado pelo Pentágono (dos EUA) na guerra contra o Irã nos seus primeiros seis dias (US$ 11,3 bilhões, ou cerca de R$ 60 bilhões). Mercado de capitais Para Wainstein, o cenário reflete a volatilidade a que está sujeito o mercado brasileiro, e as empresas médias tendem a sofrer ainda mais: - O índice de cobertura, que mede a capacidade de a empresa pagar seus custos de dívida (quanto menor o número, pior), nas médias empresas com ações em Bolsa atingiu 1,36x (vez), comparável ao de 2017. Nas maiores, que compõem o Ibovespa, está em 2,56x (vezes), menor nível desde 2020. Com o aperto nas finanças, as empresas passaram a renegociar dívidas. Esse movimento conta com a ajuda do avanço de captação no mercado de capitais. Dados do FGV Ibre mostram que empréstimos bancários estão perdendo espaço para títulos de dívida privada, que já somam um terço do crédito total corporativo. Guilherme Maranhão, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), avalia que o mercado de capitais ajudou a segurar o impacto dos juros altos na capacidade de pagamento e na qualidade creditícia das companhias: - Houve emissões de debêntures (títulos de dívida). Também cresceu a negociação de recebíveis, com maior volume de emissões de Fidcs e debêntures securitizadas (como CRI e CRA). Publicado em 22/03/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/22/empresas-asfixiadas-com-juro-alto-divida-dispara-e-pressiona-o-caixa.ghtml

Petróleo, energia, mineração: quais foram as maiores operações de fusão e aquisição do País em 2025
(Estadão) Mercado de M&A movimentou mais de US$ 58 bilhões no ano passado, um crescimento de 26,5% em relação a 2024 Impulsionado por operações de grande porte no setor de energia e recursos naturais, o mercado de fusões e aquisições no Brasil movimentou mais de US$ 58 bilhões em 2025. Segundo levantamento da Seneca Evercore, com base em dados da MergerMarket, o volume representa um avanço de 26,5% na comparação com 2024 (US$ 45 bilhões), apesar de uma queda de 3% no número total de transações. "O valor total é mais alto porque as maiores operações ocorreram em setores ligados a infraestrutura, em queo custo de capital e os investimentos necessários são maiores", diz Cleveland Prates, professor de economia da FGV-Law e de regulação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Evolução do mercado de fusões e aquisições no Brasil. Ao todo, 843 operações de fusões e aquisições aconteceram no País em 2025. O setor de energia e recursos naturais (como petróleo, mineração e celulose) foi responsável por mais 50% do valor total movimentado (mais de US$ 30 bilhões). Em 2020, essas operações representavam menos de 10% do volume. Mas, desde 2021, o segmento vem ganhando espaço, e o volume de movimentação foi o maior dos últimos 15 anos. "Um dos fatores que explicam esse movimento é a natureza mais resiliente do setor, que é menos expostos às flutuações do mercado doméstico e às incertezas políticas e econômicas do País", diz Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore. "А Selic alta tem tido um grande impacto na precificação das empresas." As maiores transações do ano A concentração setorial se reflete nas maiores transações do ano. Sete das 10 maiores transações realizadas no Brasil em 2025 foram no segmento de energia e recursos naturais, incluindo o maior negócio do ano: o Campo Offshore Peregrino. Em maio, a petroleira brasileira Prio adquiriu 60% da operação do campo de petróleo marítimo (offshore) localizado na Bacia de Campos, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. O negócio, estimado em US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 17,8 bilhões), foi assinado com a a norueguesa Equinor. A Prio tem como acionista de referência o empresário Nelson Tanure, e está avaliada em pouco mais de R$ 37 bilhões. "A Equinor está desinvestindo do setor, que já exploraram bastante, para investir em outros campos do Brasil. É algo normal neste mercado", diz Prates. A aquisição do campo Peregrino, porém, não foi a única grande movimentação do ano. A segunda posição do ranking é ocupada pelo negócio com a Serena Energia, que passou por uma oferta pública de aquisição (OPA) e pela reorganização de sua estrutura societária. Com o desinvestimento de parte da participação da Tarpon e a oferta liderada por um veículo de fundos ligado à Actis (em conjunto com o GIC), a operação movimentou cerca de US$ 2,8 bilhões e resultou no fechamento de capital da companhia. O terceiro maior negócio foi a compra da Eldorado Brasil pela J&F, após quase uma década de disputa com a Paper Excellence, por US$ 2,7 bilhões. Também chamam atenção a fusão entre a Marfrig e a BRF, que criou uma das maiores empresas de alimentos do mundo em um negócio de mais de US$ 2,25 bilhões, e a compra da fatia de 30% da Neonergia, da Previ, pela Iberdrola, em um acordo de US$ 2,2 bilhões e o aumento na participação da empresa na companhia elétrica para mais de 80%. Tração em 2026 e novas áreas promissoras Com a expectativa de queda dos juros, especialistas observam o mercado de fusões e aquisições com otimismo e projetam um 2026 mais ativo. O cenário, no entanto, ainda carrega riscos, como incertezas fiscais e o impacto do período eleitoral sobre os investidores. "A expectativa de queda da Selic voltou a aquecer o apetite para M&As", comenta Wainstein, da Seneca Evercore."Porém, discursos populistas e altos gastos governamentais podem segurar esse cenário." O executivo também observa a melhora na relação diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos como um combustível para este mercado. "Os EUA sempre foram o maior investidor e fonte de capital do País, mas tinham paralisado iniciativas. Nos últimos seis meses, a melhora no relacionamento fez com que eles olhassem com menos preconceito para cá", afirma. O prognóstico de Wainstein é que, com a queda nos juros e mais aportes internacionais, novos setores ganhem destaque. "Devemos ver um ano mais intenso, com mais transações dos segmentos de tecnologia, serviços financeiros, fintechs e gestoras de fundos", comenta. Por outro lado, Cleveland Prates entende que as transações que devem acontecer em 2026 vão além de fenômenos próprios do ano. "Raramente você prospecta, decide e compra no mesmo ano. Então, o que vai acontecer em 2026 já foi pensado em 2025", diz. "As oportunidades e desafios oriundos da economia brasileira deste ano devem começar a se consolidar a partir de 2027 ou 2028". Publicado em 15/01/2026 e disponível em: https://www.estadao.com.br/economia/negocios/maiores-operacoes-fusao-aquisicao-brasil-2025/

‘Brasil terá corrida para fechar fusões antes da eleição’, diz sócio da Seneca Evercore
(O Globo) Os próximos meses devem ser agitados no universo das fusões e aquisições (M&As, no jargão do mercado), com uma corrida contra o tempo para concluir transações antes que a campanha eleitoral se imponha, diz Rodrigo Mello, sócio-fundador da assessoria financeira independente Seneca Evercore. — O ano de 2026 tende a ser difícil, mas o Brasil vai ter muita corrida para fechar M&As e operações no mercado de capitais em geral ainda no primeiro semestre. A razão, claro, é o calendário eleitoral — conta à coluna Mello, cuja Seneca Evercore atua assessorando empresas no momento das transações. O volume de M&As no Brasil deu um salto de 27% em 2025, segundo dados da MergerMarket compilados pela Seneca Evercore, batendo US$ 58 bilhões no ano passado. Apesar do crescimento da cifra, o número de operações cai 3% de um ano para o outro. — 2025 não foi um bom ano para o segmento, com a menor quantidade de transações em seis anos. Só que o volume em reais foi muito relevante, porque algumas operações envolveram cheques muito grandes, que jogaram a cifra para cima. Megaoperações Um exemplo foi a compra de uma fatia de 30,3% na Neoenergia, que atua em geração, transmissão e distribuição de energia, pela espanhola Iberdrola. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, recebeu R$ 11,9 bilhões por sua participação. Na sequência, a Iberdrola ainda anunciou uma OPA (oferta pública de aquisição) de R$ 6,5 bilhões para comprar as ações que estavam na mão de minoritários e tirar a Neoenergia da Bolsa. Daniel Wainstein, também sócio-fundador da Seneca Evercore, acredita que 2026 será melhor para fusões e aquisições, “com a Selic potencialmente atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar os preços dos ativos e, assim, induzir acionistas a voltar a considerar vendas de participação”. Além disso, “um custo de financiamento mais baixo pode ajudar compradores em busca de financiamento para suas aquisições”. Wainstein, Mello e outro sócio-fundador, Isaias Sznifer, trabalharam na Goldman Sachs e cofundaram a subsidiária do Greenhill & Co. no Brasil em 2013. Em 2020, compraram a participação do banco “gringo” na operação local e, na sequência, venderam 20% do negócio a outra instituição americana, a Evercore. Desde então, a operação adota o nome de Seneca Evercore. Publicado em 12/01/2026 e disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/capital/post/2026/01/brasil-tera-corrida-para-fechar-fusoes-antes-da-eleicao-diz-socio-da-seneca-evercore.ghtml

Grandes operações deram o tom das aquisições em 2025
(Valor Econômico) Tendência, segundo executivos de bancos, é que setor de infraestrutura, incluindo energia, se mantenha aquecido para transações As operações de grande porte garantiram os volumes da indústria de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) no Brasil ao longo de 2025, um ano em que os juros altos deixaram mais caros os financiamentos dessas transações. Dados da consultoria Dealogic mostram que o volume anunciado ao longo do ano, considerando até metade de dezembro, somou R$ R$ 234 bilhões, em linha com o volume de 2024, de R$ 231 bilhões. A percepção é que em 2026 haverá algum incremento nos volumes, muito embora o calendário eleitoral tenha o potencial de afetar parte dos negócios, principalmente se houver volatilidade cambial, algo historicamente típico para o período, contexto que pode afastar investidores estrangeiros. A indústria chegou a um pico em 2021, na pandemia, quando movimentou R$ 482 bilhões. O responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, acredita que o volume de M&A no país vai se expandir cerca de 10% em 2026, para algo em torno de US$ 55 bilhões, com a fatia das operações envolvendo estrangeiros, chamadas de “cross border”, passando de 30% - marca de 2025 - para 35%. “Há muito interesse de europeu e asiático em Brasil." Entre as principais operações de 2025 está a compra da fatia da Eldorado antes detida pela Paper Excellence pela J&F, encerrando um longo imbróglio societário. Uma operação envolvendo duas empresas listadas foi a união entre Marfrig e BRF, que criou a gigante MBRF. Outra operação de grande porte envolveu a aquisição da fatia detida pelo fundo de pensão do Banco do Brasil, a Previ, na Neoenergia pela Iberdrola. Uma das principais transações envolveu a Prio, que concluiu a compra de 40% da operação do Campo de Peregrino (e Pitangola) da Equinor. Houve ainda, mais no fim do ano, a venda dos aeroportos da Motiva. O setor de tecnologia foi também destaque com transações peso-pesadas, como a venda da Conta Azul para a Visma. "Tivemos em 2025 um ano com mais diversificação de setores” — Diogo Aragão O chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenlees, lembra que no ano ainda somaram para os volumes de M&A transações de ofertas públicas de aquisição (OPAs) que resultaram em fechamento de capital, como a da Serena. O executivo aponta que o setor de energia “seguirá sendo um contribuinte relevante para os volumes de M&A em 2026". Levantamento da butique de M&A Seneca Evercore mostra que, ao longo de 2025, o setor de energia e recursos naturais representou uma fatia de 52% do total do volume transacionado, sendo que em 2020 foi de 10%. Conforme o sócio-fundador da Seneca, Daniel Wainstein, trata-se do maior volume desse segmento em 15 anos. “Acreditamos que 2026 pode ser um ano melhor para M&A, com a Selic atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar os preços dos ativos”, afirma. Com preços mais altos, acionistas podem voltar a considerar vender participações nas empresas. Apesar de mais operações nesses setores, que pesam na balança por serem multibilionárias, houve contribuição de mais segmentos ao longo de 2025. “Tivemos um ano com mais diversificação de setores”, comenta o responsável pela área de M&A do Bank of America (BofA) no Brasil, Diogo Aragão. Ele lembra que, no Brasil, o setor de infraestrutura segue tradicionalmente o mais ativo, dado o grau de maturidade dessa indústria. Segundo o executivo, muitas transações estão indo para a rua e sendo apresentadas para potenciais compradores com a intenção de fechar negócios já no início de 2026. “A partir de abril, o fluxo já fica condicionado às eleições”, afirma. A questão, segundo ele, é que eleições historicamente trazem efeitos ao câmbio, algo crítico para a tomada de decisão do investidor estrangeiro. André Moor, chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, diz que o banco entrou 2026 com o pipeline bastante robusto e que muitas transações "são impermeáveis às eleições", O destaque, frisa, segue em infraestrutura e energia. O responsável por M&A no Santander Brasil, Thiago Rocha, acredita que neste ano o tema eleição será de fato relevante, mas que as grandes transações seguem de forma independente. “2026 pode ser, de novo, um ano suportado por grandes transações, com um tamanho médio maior”, disse. Para o chefe da área de M&A do Goldman Sachs no Brasil, Pedro Muzzi, os volumes de M&A neste ano devem ser melhores do que em 2025. O executivo aponta que, na instituição financeira, a fila de operações tem crescido desde setembro. Um agente de mercado que deve voltar a movimentar os volumes da indústria de M&A, segundo ele, são os fundos de private equity, que, sem janela para aberturas de capital para seus desinvestimentos, devem optar pela venda de suas participações. “Eles precisam desinvestir para conseguir captar novos fundos”, diz. Por conta de volatilidade, muitas operações tiveram que contar com diferentes desenhos. O chefe da área de M&A do BTG Pactual, Alessandro Farkuh, afirma que o ano também foi marcado por transações mais estruturadas, algo que ocorreu exatamente por conta do cenário ainda de incerteza. “Em momentos como esse existe uma rediscussão enorme da forma mais inteligente de se alocar capital”, afirma Farkuh. “Há muitas transações que envolvem mercado de capitais e companhias de capital aberto”, complementa o executivo. Antonio Coutinho, que comanda o banco de investimento do Citi no Brasil, diz que o ambiente para transações de fusões e aquisições foi ficando mais positivo ao longo de 2025. “O ‘pipeline’ ainda está dominado pelas grandes transações de infraestrutura”, afirma Coutinho. Ele aponta, por outro lado, que as operações no setor de energia, que todos os anos são destaque, perderam força em 2025, com menos participação das empresas do setor de renováveis, que vivem desafios por conta do “curtailment” (redução forçada da geração de energia). Diego Mendes, corresponsável pela área de M&A da XP, diz que também espera um ano mais positivo para os negócios e que a melhora do desempenho das ações listadas ajuda a aproximar a percepção de valor dos ativos entre compradores e vendedores. Publicado em 05/01/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/01/05/grandes-operacoes-deram-o-tom-das-aquisicoes-em-2025.ghtml

Energia lidera fusões e aquisições em 2025, e juros influenciarão negócios em 2026
(InfoMoney) Entre janeiro e novembro de 2025, houve um aumento no volume das transações de fusões e aquisições de 18% na comparação com o mesmo período do ano anterior — isto é, a soma dos valores transacionados. No lado do número de negociações, no entanto, o valor caiu 25%. Os dados foram levantados pela boutique de M&A Seneca Evercore, a pedido do InfoMoney. “O aumento do volume transacionado se deve a algumas operações de grande porte, concentradas, sobretudo, nos setores de energia e recursos naturais, que englobam, por exemplo, empresas de geração e distribuição de energia, petróleo e gás, papel e celulose, e mineração”, explica o sócio-fundador da Seneca Evercore, Rodrigo Mello. A compra de participação do Campo Offshore Peregrino da Equinor pela PRIO por US$ 3,35 bilhões foi a maior operação do ano, seguida pela aquisição da Serena Energia pela Actis, em um desinvestimento da Tarpon, por US$ 2,82 bilhões. Também no setor de energia e recursos naturais, o terceiro maior negócio foi a compra da Eldorado Brasil pela J&F, após oito anos de disputa com a Paper Excellence. Desde 2021, o setor de energia tem ganhado espaço no mercado de M&A, saindo de 10% de representatividade no volume em 2020 para 54% em 2025. De janeiro a novembro deste ano, o volume transacionado em operações de energia e recursos naturais foi de US$ 28,2 bilhões, 47% superior na comparação com o mesmo período do ano anterior. “Um dos fatores que explicam esse movimento é a natureza mais resiliente desses setores, que são menos expostos às flutuações do mercado doméstico e às incertezas políticas e econômicas do país”, aponta Mello. É um cenário que não deve mudar tanto em 2026. Para o managing partner da 44 Capital, Guilherme Steagall, uma tendência do setor de M&As para o próximo ano é a consolidação em setores hoje muito regionalizados — o caso de alguns empreendimentos de geração de energia. “Há tentativas de consolidar essas capacidades. Muitos projetos de energia solar, por exemplo, são bem regionalizados, localizados. Temos visto muitos fundos e outros players levantando dinheiro especificamente para comprar grandes capacidades, em especial quando há PPA (contratos de longo prazo de compra de energia) associadas”, conta Steagall. Para o especialista, o maior número de transações, em 2026, deve se concentrar também em setores como logística, tecnologia, educação, infraestrutura. Segundo o estudo da Seneca, depois de energia e recursos naturais, consumo e varejo (14%), indústrias (9%), transporte e logística (8%) e tecnologia (7%) tiveram a maior representação em volumes de negócios. Negócios em 2026 Depois de mais um ano em que o setor de energia e recursos naturais foi destaque entre as fusões e aquisições no Brasil, os olhares se voltam para a política monetária. Para analistas consultados pelo InfoMoney, o comportamento dos juros deve impactar os preços de ativos e induzir vendas de participações, enquanto um patamar ainda elevado da Selic pode tornar os M&As uma alternativa de financiamento relevante. A expectativa por cortes na taxa básica de juros, hoje em 15% ao ano, é um elemento central nas projeções do mercado de M&As em 2026. “Pode ser um ano melhor, com a Selic potencialmente atingindo patamares mais baixos, o que poderia impulsionar preço dos ativos e, assim, induzir acionistas a voltar a considerar vendas de participação”, aponta Mello, da Seneca Evercore. Da mesma forma, ele avalia, um custo de financiamento mais baixo pode ajudar compradores em busca de financiamento para suas aquisições. Hoje, o mercado avalia que já no início do próximo ano o Banco Central inicie um ciclo de cortes nos juros. No último Boletim Focus, agentes do mercado diminuíram a projeção da taxa Selic de 12,25% para 12,13%. O documento, publicado em 15 de dezembro, reúne expectativas do mercado para a economia. Steagall pondera que juros ainda elevados devem fazer com que as fusões e aquisições se apresentem como uma alternativa ao financiamento das empresas. “É muito difícil se manter de forma independente com uma taxa de juros em um patamar de 15%, difícil ter rentabilidade. O mercado de M&A será uma solução: os ganhos de eficiência por meio da consolidação de atividades, em especial das cadeias logísticas e produtivas. É um caminho.” O executivo da 44 Capital projeta um perfil diferente nos negócios para o próximo ciclo. Sua avaliação é a de que, em 2026, sejam concretizadas mais transações com volume “um pouco menor” do que em 2025. “Empresas de tamanho médio terão um papel importante. Claro que vão ter novas fusões, mas esse racional se aplica muito às companhias médias”, aponta. Até novembro, foram 592 transações até novembro deste ano, com volume superior a US$ 52 bilhões. *Correção: Uma versão anterior deste texto falava em PPP (“Parcerias Público-Privadas”), em vez de PPA (Power Purchase Agreement) em energia solar e foi corrigida. Publicado em 17/12/2025 e disponível em: https://www.infomoney.com.br/business/energia-puxa-mas-em-2025-e-juros-devem-ser-determinantes-para-2026/

Investimento estrangeiro no país volta a subir, mas só deve virar operações de fusões e aquisições em 2026
(Valor Econômico) Entre as dez maiores transações de M&A em 2025, estrangeiros estiveram na ponta compradora em apenas duas, parcela bem inferior à de 2023, quando responderam por metade das principais operações. Após quedas consecutivas desde fevereiro, os Investimentos Diretos no País (IDPs) voltaram a crescer em setembro, segundo dados do Banco Central compilados pela Seneca Evercore e obtidos com exclusividade pelo Valor. No mês, os ingressos líquidos somaram US$ 10,7 bilhões — o maior volume para o período nos últimos cinco anos e o mais alto desde março de 2023, quando foram registrados US$ 10,8 bilhões. “O investidor, principalmente o americano, está mais confiante com a relação bilateral entre Brasil e EUA, com expectativa de queda gradual da Selic [taxa básica de juros] e sustentação do valor do real”, afirma Daniel Wainstein, sócio-fundador da Seneca Evercore. Apesar da recuperação, esses recursos devem se refletir em novas operações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) apenas ao longo do primeiro semestre de 2026, afirma Wainstein. Isso porque esses processos costumam ser complexos e demandam meses até a conclusão. O relatório mensal da consultoria reforça essa avaliação. Em outubro, o número de transações de M&A caiu ao menor nível em cinco anos, totalizando 33 operações — menos até do que no início de 2020, auge da pandemia. De forma geral, 2025 não tem sido um ano favorável para operações de M&A. Entre janeiro e outubro, foram registradas 530 fusões e aquisições no Brasil, o menor patamar para o período desde 2020. Em valor, as transações somaram pouco mais de US$ 44 bilhões, superando apenas o resultado de 2023, segundo a Seneca. A participação do investidor estrangeiro também foi tímida. Entre as dez maiores transações de 2025, eles estiveram na ponta compradora em apenas duas, participação bem inferior à de 2023, quando responderam por metade das principais operações. “O último trimestre não deve mudar muito, mas estamos confiantes quanto a uma melhoria mais acentuada ao longo do primeiro semestre de 2026”, afirma Wainstein. Mesmo com o desempenho mais fraco, alguns setores seguem resilientes. Energia e recursos naturais, por exemplo, continuam em níveis recordes, tendo respondido por oito das dez maiores transações do ano, somando US$ 20,2 bilhões em valor. Publicado em 25/11/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/11/25/investimento-estrangeiro-no-pais-volta-a-subir-mas-so-deve-virar-operacoes-de-fusoes-e-aquisicoes-em-2026.ghtml

Fundos de permuta: A alternativa de incorporadoras ao IPO
(VEJA) Modelo elimina os altos custos de uma listagem em bolsa Com a seca dos tradicionais IPOs na bolsa há quatro anos, o setor imobiliário – que sempre foi um setor cujo crescimento dependeu justamente de injeções de capital e teve o IPO como grande propulsor – vê crescer uma alternativa para capitalização. Tratam-se dos fundos de permuta. O sócio-fundador da boutique de assessoria financeira Seneca Evercore, Daniel Wainstein, define o modelo como o “IPO dos projetos de incorporação”. Nesse formato, investidores financeiros passam a ter participação nos empreendimentos imobiliários — ao invés de participação na empresa incorporadora –, enquanto os incorporadores obtêm os recursos necessários para tocar seus projetos. “O modelo elimina os altos custos de uma listagem em bolsa, como as obrigações regulatórias e a manutenção da relação com investidores. Isso somente se tornou viável recentemente uma vez que o mercado investidor imobiliário cresceu muito, enquanto investidores buscam investir seus recursos em fundos focados nesse mercado”, conta Wainstein. Publicado em 04/10/2025 e disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/radar-economico/como-fundos-de-permuta-para-incorporadoras-sao-alternativas-ao-ipo/.

M&As de tecnologia movimentam R$ 16,7 bi até julho
(Valor Econômico) Grandes operações, especialmente na área de software, voltaram a aquecer o setor, após um longo período de entressafra e ativos descontados Grandes transações do setor de tecnologia voltaram a ganhar espaço no Brasil, depois de um “inverno” que obrigou startups a ajustarem o negócio e a buscarem rentabilidade. Depois de alguns anos em compasso de espera, as operações no setor deram sinal de retomada nos últimos meses - no acumulado do ano até julho, somam R$ 16,7 bilhões. No mesmo período em 2024, conforme dados de mercado, o valor foi de R$ 13 bilhões - e de R$ 12 bilhões em todo o ano de 2023. A tendência é de crescimento. Se considerados os dados globais de M&A (fusões e aquisições, na sigla em inglês) no setor neste ano, o volume chega a US$ 2,3 trilhões, conforme a consultoria Dealogic, aumento de 50% em relação a todo o ano de 2024. Foram 34 operações considerando-se os sete primeiros meses deste ano envolvendo apenas empresas de software, de acordo com a RGS, butique de M&As. Em 2024, foram 37 ao todo. Os números ainda estão longe dos vistos em 2021, durante a pandemia, período em que a ampla liquidez global e busca por digitalização levou a uma corrida por ativos do setor. Naquele ano, o mais aquecido na história, foram registradas 114 transações. Dentre as grandes operações anunciadas no período está a venda da Linx, pela Stone, para a Totvs. Outra operação considerada um marco foi a venda da Conta Azul para a Visma, uma gigante norueguesa de software de gestão para pequenas e médias empresas. O investimento minoritário do fundo General Atlantic na Starian, da Softplan, também foi uma das principais do ano até o momento. Outro negócio de peso foi o investimento da Partners Group na Omie, de gestão empresarial. A gigante iFood adquiriu 20% da CRMBonus, de “giftback” e cupons do varejo. Outras operações estão na rua e devem dar mais musculatura ao volume negociado este ano. A Superlógica, de software de gestão de condomínios e controlada pelo fundo de private equity (que compra participação em empresas) Warburg Pincus, está à venda, apurou o Valor. Segundo fontes, há outras empresas de grande porte do setor que devem lançar em breve operações. Procurada, a Superlógica não respondeu ao pedido de comentário. Depois de uma entressafra para o setor, o valor das empresas nessas operações também voltou a subir. Os dados da RGS mostram que os múltiplos pagos foram a 6 vezes, considerando o valor da empresa pela receita, ante 4 vezes em 2024 e 4,5 vezes em 2023. Para se ter uma ideia, em 2021, o múltiplo pago foi, na média, de 11,3 vezes. Prova dessa discrepância foi a venda da Linx: quando a Stone comprou a empresa em 2020, pagou R$ 6,7 bilhões, e a revendeu neste ano por cerca de R$ 3 bilhões. Estudo da butique de M&A Fortezza mostra que, em software, as métricas estão bastante positivas, algo que pode ajudar a explicar a demanda em grandes transações no segmento. Neste nicho, a receita cresceu, na média, 15,6%, ante 13,1% de serviços de TI e 5,6% em telecom, por exemplo. Segundo fontes consultadas pelo Valor, algumas transações do setor estão sendo lançadas porque parte dos empreendedores não quer passar por uma nova rodada de captação, ainda mais diante da leitura de que será mais difícil entregar crescimento relevante em um ambiente macroeconômico mais hostil. Além disso, outra pressão que tem surgido está vindo dos próprios fundos querendo retornar capital aos seus cotistas. “Estamos vendo o mercado voltar a se aquecer neste ano. Ele estava muito quente entre 2020 e 2021. Depois, observamos uma grande ressaca em 2023 e 2024. Agora, temos uma boa recuperação”, diz Fábio Jamra, sócio da butique RGS. Segundo o executivo, as captações dos fundos voltaram a acontecer, mas os investidores seguem seletivos. A transação do ano apontada como emblemática foi o investimento da Visma no Brasil, por quase R$ 2 bilhões. No mercado, a leitura foi que outros players passaram a olhar oportunidades no país após esse movimento da empresa norueguesa. “Estamos bastante otimistas com o momento do setor de tecnologia no Brasil. No mercado privado, temos visto tanto a demanda de ‘high profile growth equity funds’ como a de estratégicos dedicados globais aos melhores ativos no Brasil. Isso ficou evidente pelos diversos ‘deals’ que conduzimos recentemente, dentre eles a venda da Conta Azul para a Visma, ou o aporte privado da General Atlantic na Starian”, afirma Pedro Pereira, responsável pela área de tecnologia para América Latina do Bank of America no Brasil. Segundo o executivo do BofA, o interesse nos ativos vem ocorrendo não só de investidores financeiros - algo também provado no desempenho das empresas no setor na bolsa, acima do próprio Ibovespa, que já apresenta performance positiva -, mas também dos estratégicos. O executivo aponta que a alternativa do M&A para essas empresas voltou a se abrir e muitas conseguiram atravessar o “inverno” do setor ajustando a rota, cortando custos e se mostrando resilientes. Pereira afirma também que o mercado de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) nos Estados Unidos está aberto, mas ainda há uma exigência em relação ao tamanho das operações. Isso significa que muitas empresas de tecnologia precisarão crescer para buscar uma abertura de capital. Isaias Sznifer, sócio da Seneca Evercore, aponta que o setor de tecnologia sempre teve participação relevante na indústria em números de operações, mas que, recentemente, tem se observado operações maiores. Daniel Gildin, sócio-fundador da Fortezza Partners, pondera que, no setor, as grandes transações têm chamado a atenção, mas o mesmo não tem sido visto nos números de operações, que têm registrado queda. “As empresas muito pequenas estão com dificuldade de fazer transações”, diz. O executivo afirma que parte de operações deve ser acelerada, para ser assinada antes da virada do ano, dado que existe a leitura de que pode ser melhor evitar anos eleitorais. Publicado em 30/09/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/09/30/m-as-de-tecnologia-movimentam-r-167-bi-ate-julho.ghtml.

Incorporadoras de médio e alto padrão ficam descontadas na bolsa
(Valor Econômico) Alternativas para conseguir recursos poderiam substituir IPO, segundo Seneca; analistas discordam e apontam ganhos de governança Das 12 principais incorporadoras de médio e alto padrão listadas em bolsa no país, apenas 3 são negociadas a um preço acima do seu valor patrimonial - ou seja, resultado da subtração dos passivos do valor dos ativos. Dessas 12, só 5 tiveram alta no preço da ação no acumulado desde a abertura de capital (IPO) até segunda-feira (22). Para Daniel Wainstein, sócio da gestora Seneca Evercore, dados como esse mostram que não há motivos para as incorporadoras de médio e alto padrão se interessarem por um IPO. O recurso necessário para seu crescimento pode ser obtido de outras formas, menos custosas. Analistas discordam, embora apontem que a incorporação impõe um desafio à cobertura tradicional de resultados. Interesse pelos IPOs não falta no setor. Na última janela, entre 2019 e 2021, seis incorporadoras fizeram suas ofertas iniciais, e outras ficaram na fila. Desde 2014, foram 10 operações no setor imobiliário, 11% do total de ofertas, aponta a Seneca. Para Wainstein, a falta de previsibilidade nos lucros das incorporadoras, que trabalham com projetos de longo prazo, é “péssima para o mercado de ações”. Algumas dessas companhias são relativamente pequenas e acabam com pouca liquidez na bolsa. A cada vez que os resultados não vão como esperado, os papéis ficam mais concentrados em poucos investidores. Quando essas incorporadoras quiserem fazer uma oferta secundária (“follow-on”) para financiar novos projetos, por exemplo, os acionistas não vão aprovar. “Quando você levanta o capital e está negociando abaixo [do valor patrimonial], está destruindo o valor para o acionista”, diz Wainstein. A Seneca trabalha com um produto que ele define como uma alternativa ao IPO, um fundo de permuta, ou “IPO de projeto”. São fundos que reúnem empreendimentos que precisam de capital para bancar a parte da obra que não é financiada pelos bancos ou por outros fundos de investimento, de cerca de 30% para o médio e alto padrão. O objetivo é atrair investidores institucionais, que entram como permutantes da obra, ganhando parte do resultado. O modelo tem semelhanças com o veículo de investimento que a JHSF, companhia listada, anunciou na semana passada, que vai envolver cinco ativos e R$ 4,6 bilhões - montante que supera o valor de mercado da empresa em 20%. O veículo da JHSF, no entanto, envolve o estoque da companhia. Procurada, a incorporadora afirmou estar em período de silêncio. Analistas afirmam que não é um substituto ao IPO. Bruno Mendonça, líder da análise de real estate do Bradesco BBI, destaca que um IPO é “um negócio muito mais amplo do que financiar um projeto e comprar terreno”, e que “nada impede” que uma incorporadora listada recorra a fundos de permuta, alternativa que considera interessante. Mendonça lembra que empresas listadas conseguem atrair executivos mais gabaritados, por causa da remuneração com ações. Também destaca a possibilidade de ter eventos de liquidez para o acionista e ganhos de governança. “Você é obrigado a fazer uma prestação de contas que te dá mais segurança nos processos”, diz Hugo Grassi Soares, analista e consultor de relações com investidores. Soares também destaca que, em um momento de capital caro e escasso, quem é listado costuma ter acesso a taxas melhores e a mais oportunidades de financiamento. Na Helbor, o valor das ações, que sobem 159,4% no ano, mas têm queda de 73,2% desde o IPO em 2007, “orienta o ‘timing’ e o formato das operações” de financiamento, diz o CEO Henry Borenstein, que avalia a abertura de capital como um “marco relevante” para a empresa, que permitiu sustentar seu crescimento no período. Mendonça pondera que a janela de IPOs “acontece em momentos de excesso de otimismo”, e aí mora o perigo. A última janela, lembra Soares, ocorreu na gestão Paulo Guedes no então Ministério da Economia, com juros em queda. Havia tantos novos investidores que era preciso encontrar onde alocar os recursos. A incorporação imobiliária tem barreira de entrada baixa e é muito pulverizada. Ou seja: não faltam candidatas para atender ao chamado dos bancos. Mas o setor também tem a característica de ter uma contabilidade “nebulosa”, como define Soares. A própria pulverização dificulta um acompanhamento mais próximo das empresas listadas - e mais ainda das candidatas à listagem -, o que concentra a atenção nas companhias maiores e em movimentos macroeconômicos. Outro ponto, segundo os especialistas, é que parte importante da rentabilidade de um projeto depende do custo de aquisição do terreno, e esse mercado de terras não é transparente como o de commodities. Uma onda forte de listagem de incorporadoras, por si só, interfere no preço da terra, dificultando a realização da rentabilidade proposta pelas empresas. Os analistas, porém, defendem que o setor soube se policiar na última onda de IPOs, que foi dividida entre novas ofertas, ofertas “patrocinadas” por negócios já consolidados e em “follow-ons”. “Tem histórias muito boas dessa safra, como Cury, Plano&Plano, Lavvi e Moura Dubeux, que entregaram tudo o que prometeram e até um pouco mais”, afirma Mendonça. Diego Villar, CEO da Moura Dubeux, ressalta que a companhia não teria conseguido capital para sustentar seu crescimento sem o IPO, a não ser por algum investimento direto no negócio. A empresa multiplicou seus lançamentos por sete, de 2019 a 2024. Sem isso, estariam “brigando” com empresas médias do Nordeste, diz. Já a Plaenge, que atua na média e alta renda, não vê motivos para se listar, apesar de sempre ser procurada pelos bancos, diz o sócio-diretor Alexandre Fabian. A companhia afirma ser a segunda maior incorporadora no seu segmento, só atrás da Cyrela, com R$ 4,55 bilhões em lançamentos e R$ 3,64 bilhões em vendas em 2024. Pelo tamanho da operação da Plaenge, não há dificuldade para acessar crédito com bancos, afirma Fabian. A empresa tem conseguido crescer organicamente e ser fechada garante que as decisões sejam tomadas com mais “serenidade”, segundo ele. “A bolsa de valores foi formatada para o mercado industrial americano, em que o ciclo do produto é trimestral, mas o mercado imobiliário é de longo prazo”, diz. “Existe uma incompatibilidade de visão, que atrapalha as empresas de capital aberto.” MCMV tem desempenho favorável A situação é diferente para as incorporadoras que atuam no Minha Casa, Minha Vida (MCMV), com foco no público de baixa renda. Das cinco principais empresas listadas do segmento, só a MRV, afetada principalmente pelo seu negócio norte-americano, negocia abaixo do valor patrimonial (em 0,8 vez). Já a Cury bate 7,3 vezes. Sarah Balestero, também sócia da Seneca, explica que isso acontece porque essas empresas, em geral, têm operações mais padronizadas, rápidas e com um volume maior de projetos, o que as aproxima da lógica industrial esperada pelo mercado financeiro. Das 17 incorporadoras listadas, apenas quatro estão no índice Ibovespa, que reúne 81 negócios. A Cury é a mais nova dessa lista, acrescentada em setembro — Direcional, MRV e Cyrela completam o quarteto. Só a última não é exclusiva do segmento do MCMV, mas tem uma marca de padrão popular e participação na Cury e na Plano&Plano, ambas dessa área. A visão positiva sobre as empresas listadas, e principalmente do segmento econômico, até fez com que incorporadoras decidissem “furar a fila” da abertura de capital e apostar no “IPO reverso”. A BRZ, grande incorporadora do MCMV, assinou um acordo de entendimento para se unir à Fica (ex-CR2), que, embora listada, não lançou projetos de 2012 até o final de 2024. “Eu acredito que o IPO traz longevidade, é a transição de uma empresa familiar para uma corporação”, afirmou Marcelo Tolentino, presidente do conselho da BRZ. Outras aguardam na fila. A Pacaembu, que constrói casas populares no interior do país, tentou a janela de 2020 e espera uma nova oportunidade para se listar. Victor Almeida, presidente do conselho da companhia, destaca que, mais do que uma forma de trazer recursos, o IPO ajuda a garantir perenidade para o negócio, que é da sua família. “Vimos que abre algumas portas, seja de atração de profissionais, seja de estar em mesas de discussões que só empresas abertas normalmente estão, e até no mercado de dívidas”, afirma. Publicado em 23/09/2025 e disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/09/23/construtoras-ficam-descontadas-na-bolsa.ghtml.
